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A ESCOLA E AS MANIFESTAÇÕES DA VIOLENCIA A violência juvenil corresponde a um grito lançado à consciência de
todos nós, uma interpelação, um pedido de socorro dirigido à sociedade
LUIZ EDUARDO SOARES*
Não sou especialista em educação, mas sou professor há mais de 30 anos, o que me deixa razoavelmente confortável para lidar com a problemática da escola. Por outro lado, violência e segurança pública são o tema de minha obsessão e têm sido o desafio de minha prática cotidiana, nos últimos anos, primeiro no governo do Estado do Rio de Janeiro, depois na Prefeitura de Porto Alegre, finalmente, na Secretaria Nacional de Segurança Pública. O mais interessante é que as duas pontas de minha vida profissional começaram a se cruzar, com intensidade, quando me dediquei ao estudo e à gestão pública da segurança no âmbito municipal. A razão é simples: no município, não há polícias; no máximo, dispõe-se de uma Guarda civil com poderes limitados e funções bastante restritas. Portanto, mesmo que não se queira, as questões referentes à violência e à criminalidade têm de ser abordadas por um viés social e preventivo.
Quem não vivencia o acolhimento e o reconhecimento do próprio valor, nas experiências matriciais da juventude, tende a condenar-se a uma espécie de exílio involuntário e irrevogável em casa, na vida social, no próprio país. Por outro lado, quem traz dentro de si a certeza do afeto dos outros significativos sente-se confortável na sociedade e tende a viver o mundo como extensão da própria casa. A experiência da negação do valor, de recusa do acolhimento, de fratura das relações primárias de amor, em casa e na escola, associada aos preconceitos racistas e classistas que projetam rótulos e anulam individualidades, produz a vivência dolorosa da invisibilidade. Vítima desse roteiro de negligência, indiferença e estigmatizações, o menino pobre transita invisível pelas ruas das metrópoles brasileiras. Quando recebe uma arma do tráfico, encontra a saída, desesperada e negativa, sobretudo autodestrutiva, mas útil. A arma lhe permite, tanto quanto o ganho material, a imposição, ao outro, do medo. Pela mediação do medo, o menino dissolvido na penumbra social, recupera visibilidade. Com medo, quem antes passava ao largo, apressado e indiferente, é obrigado a trocar o desdém superior pela atenção e até mesmo pela obediência. Arma é meio de autoconstituição subjetiva pelo reforço narcísico que recompõe a auto-estima fragilizada. O medo é recurso para a imposição do reconhecimento, reiteradamente negado nos encontros fortuitos cotidianos. Nessa dialética negativa, compreensível mas profundamente destrutiva, perdemos todos: a sociedade, o menino e sua vítima aleatória. Esse pacto fáustico propicia a experiência efêmera da visibilidade e, mais ainda, da relevância social cercada de uma aura de autoridade, mas cobra ao menino sua alma: o futuro, que lhe será arrancado pela morte violenta e precoce. Trata-se de uma dinâmica negativa porque a auto-estima confunde-se com um processo autodestrutivo regido pela culpa potencial e pela imagem degradante do crime, que reintroduz a mesma exclusão que fôra exorcizada no movimento de recomposição da presença e da visibilidade.
Por isso, a violência juvenil, cuja principal fonte imediata é o varejo do tráfico de armas e drogas, nas periferias e favelas, corresponde a um grito lançado à consciência de todos nós, uma interpelação, um pedido de socorro dirigido à sociedade. A cura está no reforço da auto-estima estilhaçada, na valorização pessoal, no reconhecimento, no acolhimento. Se a casa não oferece o abrigo afetivo adequado, seja por conta da violência doméstica – que deve ser um dos alvos prioritários de qualquer política de segurança conseqüente –, seja por conta da precariedade dos laços de solidariedade e responsabilidade, seja ainda pela pressão extrema da carência econômica e de seus ecos subjetivos, e se a rua é hostil e condena o jovem à invisibilidade, resta a escola, como esperança de restabelecimento dos elos partidos e da presença desautorizada.
Luiz Eduardo Soares é carioca, antropólogo e sempre soube dividir a bola entre o estádio e a sala de aula. Está à vontade, tanto no Maracanã, torcendo pelo seu Fluminense, quanto na academia, expondo, debatendo e questionando autores e idéias
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