Perfil << Home
Envie para um amigo Imprimir
  ´SAMBA, CULTURA E POLITICA´
À frente da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro, NOCA DA PORTELA, como bom "partideiro", pretende fazer a união da política com o gênero musical que escolheu há quase 60 anos

POR ELIANE BENÍCIO
FOTO: DANIEL BENASSI

Aos 14 anos, Oswaldo Alves Pereira conquistou o seu primeiro samba-enredo e com ele a sua primeira nota 10 no quesito, com O Grito do Ipiranga, para a antiga Escola de Samba Unidos do Catete. No final da década de 1950 ajudou na fundação de outra escola, a Paraíso do Tuiuti, para onde compôs mais sambasenredo vencedores. Adotou o nome artístico Noca da Portela nos anos 60, depois que Paulinho da Viola o convidou para atuar como violonista no show Carnaval para Principiantes, no Teatro Opinião, e em seguida o levou para o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Portela. Na azul e branco do subúrbio carioca, o músico acumulou seis sambas vitoriosos, dois prêmios Estandarte de Ouro. Em 1997, o sambista montou a Casa de Noca, de resgate cultural, num bairro da Zona Sul do Rio.

Hoje, quase dez anos depois, Noca da Portela foi oficialmente nomeado secretário de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. Cargo que ocupa desde o dia 30 de março deste ano. Ele, que sempre tirou partido da política nos seus sambas, foi obrigado a mudar de postura. "Quando um político pisava na bola, eu escrevia um grande samba e lançava. Agora também faço parte deste caldeirão que é a política e preciso pensar bem antes de fazer alguma crítica", pondera esse mineiro da cidade de Leopoldina, que se criou no Rio de Janeiro e com o tempo tornou-se um dos principais representantes do samba e da música brasileira.

Cantor, compositor, ex-militante político, ex-produtor musical, ex-tipógrafo, ex-feirante, o novo secretário de Cultura do Rio não é um intelectual e sua nomeação deixou muita gente surpresa. "Não conhecem o Noca, nem as coisas boas que fiz por esse país, musical e politicamente. Não lembram que eu já me candidatei a vereador e recebi 5.200 votos". No entanto, não o poupam de comparações pejorativas com o atual ministro da Cultura, Gilberto Gil. "Dois negros de origem humilde no poder... Isso é o que se ouve por aí, mas considero o ministro da Cultura um representante autêntico da nossa raça e bastante competente. Quanto a mim, tenho a consciência de que não posso falhar". Nesse aspecto, preconceito não dá samba. "Todos temos um coração que bate até não mais bater e temos o sangue vermelho. A grande importância está na valorização do ser humano e na capacidade de cada um", discursa.

DOIS EM UM

Música e política acompanham a vida e a obra de Oswaldo Alves Pereira. Ainda na infância ele aprendeu com o pai, o músico Ernesto Domingos de Araújo, os primeiros acordes de violão, praticamente ao mesmo tempo em que acompanhava de ouvido reuniões do Partido Comunista Brasileiro. "Meu pai não foi um partideiro de samba, mas teve o Partidão. Quando pequeno eu prestava atenção nas reuniões que ele e os amigos faziam, na luta dos comunistas pela melhora do nosso país e nos riscos que corriam. Quando ele morreu, sua alma encarnou em mim", conta o secretário.

Hoje, Noca se orgulha de ser um bom "partideiro", em todos os sentidos, graças às influências de figuras como Luís Carlos Prestes, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Estes dois últimos ele acompanhou em campanhas eleitorais pelo Brasil e incentivou, compondo vários jingles. Os grandes caciques lhe ensinaram que em política é preciso estar atento a tudo e que qualquer cochilo pode ser fatal. "A escola da vida também é muito importante e desta eu tenho canudo. Estou aqui como exemplo, para a minha geração de amigos sambistas e para as gerações futuras. O sonho tem de ser parte da vida de cada um". Inspirado no antigo projeto cultural Casa de Noca, ele deve concretizar, em sua gestão, a Casa do Samba no centro do Rio de Janeiro. Um lugar para sambistas novos e veteranos se reunirem. Um quintal para ensaios e um moderno estúdio de gravação estão na planta. "Será uma casa para o sambista chamar de sua", finaliza.

"
A ESCOLA DA VIDA É IMPORTANTE E DESSA EU TENHO CANUDO. ESTOU AQUI COMO EXEMPLO, PARA A MINHA GERAÇÃO E PARA AS GERAÇÕES FUTURAS. O SONHO TEM DE SER PARTE DA VIDA DE CADA UM"

 

Movimento :: ed 136 - 2009
Beleza rara
Reportagem :: ed 137 - 2009
Negros do Mundo
Perfil :: ed 137 - 2009
Jéssica Barbosa

Perfil :: ed 137 - 2009
Jéssica Barbosa
Notícias :: 24/11/09
Livro traz trajetória de cantoras negras 'não-sambistas'
Agenda :: 12/11/09
Santa Maria comemora Consciência Negra

 
Quero Assinar
Comprar esta edição
Ver Edições Anteriores
 













BUSCAR!

 
Assine Atrevidinha
 

No passo do frevo
Seria o frevo o jazz brasileiro ou o jazz o frevo norte-americano? Quem sabe?

 
Prontos para o altar
Os noivos são naturalmente o centro das atenções e não precisam de muito para arrancar elogios


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS