O caminho dos direitos iguais, da justiça e da eqüidade passa pela valorização da diversidade em todos os setores da sociedade. Essa é uma das mais ricas descobertas de importantes universidades públicas que atuam no cenário educacional brasileiro. A maioria daqueles que apostaram na previsão preconceituosa de que a implantação da política de cotas iria aumentar o conflito racial e diminuir a qualidade acadêmica nas universidades está se arrependendo desse erro avaliativo. As cotas estão fazendo justamente o contrário: integrando as etnias deste grande e diverso Brasil.
A pessoa humana interage com o meio em que vive e realiza importantes trocas. O povo brasileiro anseia pela integração pluriétnica e pelo enriquecedor intercâmbio de experiências a partir dos vários povos que compõem esta nação. Vejamos o exemplo advindo dos campos de futebol: negros e brancos convivem muito bem no mundo desse esporte, desenvolvendo a encantadora arte de jogar. O Brasil não tinha dado a si mesmo a oportunidade de experimentar o convívio entre brancos e negros nos campi universitários, desenvolvendo a encantadora arte do saber acadêmico. A implantação da política de cotas está possibilitando esta extraordinária experiência.
Mais de trinta instituições superiores de ensino público já adotaram ações afirmativas para o ingresso de seus alunos (veja a lista completa em www.racabrasil.com.br). Nenhuma delas está arrependida. Muito pelo contrário. Todas estão surpresas com a capacidade de superação dos cotistas. Em geral, no vestibular, eles tiram notas 30% abaixo das alcançadas pelos alunos da classe média que freqüentaram cursinhos caros. Um ano após terem ingressado na universidade, seria normal terem média acadêmica 30% abaixo dos demais, que entraram com o auxílio de cursinhos pagos. No entanto, o que se vê? Eles têm notas próximas, iguais ou superiores. Isso se verificou na Escola Paulista de Medicina, nas federais do Paraná, da Bahia, de Mato Grosso, de Brasília e em diversas outras universidades.
Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, após um ano de aplicação das cotas, a pesquisa foi bastante abrangente. Vamos levar em conta aqui apenas a avaliação do desempenho dos alunos que tiveram médias finais entre 7 e 10. Após um ano de análise dos dois grupos - freqüentando a mesma sala, com o mesmo professor e com acesso à mesma biblioteca -, dos alunos que entraram pelo método tradicional, sem as cotas, apenas 47 % obtiveram média final entre 7 e 10 pontos. Já entre os cotistas, pobres, negros, de escolas públicas, que só entraram porque foram beneficiados por esse tipo de ação afirmativa, o índice dos que obtiveram a mesma média sobe para 48,9%.
Algo novo está pairando no ar. O Brasil está reconhecendo que a universidade pública gratuita - com o sistema de vestibular atualmente vigente, que exclui quem não tem dinheiro para fazer cursinhos e aprender macetes para passar na prova - está com os dias contados. É importante entender as lições que vêm da implantação das cotas: a real capacidade das pessoas não se mede com o falido sistema do vestibular. Ele é um instrumento que cria uma falsa isonomia, excluindo pessoas com grande potencial em nome da meritocracia.
"MAIS DE TRINTA INSTITUIÇÕES SUPERIORES DE ENSINO PÚBLICO JÁ ADOTARAM AÇÕES AFIRMATIVAS. NENHUMA ESTÁ ARREPENDIDA. PELO CONTRÁRIO. TODAS ESTÃO SURPRESAS COM A CAPACIDADE DE SUPERAÇÃO DOS COTISTAS"
Frei David Santos Ofm é sacerdote franciscano e diretor-executivo da Educafro, rede de 255 pré-vestibulares comunitários para negros.