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1. A questão do negro no Brasil é um tema freqüente na sua vida? O que você acha da situação dessa população hoje?
Quando penso a sociedade brasileira hoje, percebo claramente uma grande contradição social: poucos com muito e muitos com praticamente nada. A grande maioria vive precariamente e com poucas chances de mobilidade sócio-econômica, e a população afrodescendente continua sendo a menos favorecida. Acho que nossa sociedade ainda não saldou a dívida histórica, econômica e cultural com essa população. De quem foi, por exemplo, o braço mais explorado nas origens de formação do Brasil para gerar nossas riquezas econômicas? Do negro, aparte, é claro, o extermínio da população nativa indígena. Uma outra questão é a riqueza de nossos ritmos musicais e das raízes negras, que não são claramente reconhecidos. Em contrapartida, vejo atualmente um início de uma discussão sincera sobre o tema da discriminação racial, como na polêmica lei de cotas nas universidades. É um início, mas faz parte do que reconheço ser uma possibilidade de reparação.

2. Você disse que não concordava com os caminhos tomados pela revista Raça para discutir a questão do negro. Como você acha que esse assunto deve ser abordado?
Inicialmente a revista privilegiava a aparência mais do que o conteúdo. Penso que auto-estima é muito mais que aparência, é se afirmar com conteúdo, com disposição de construir a vida sem rancor ou ressentimentos. Devemos pensar hoje nossa condição histórica mais numa perspectiva de construção.

3. Você acha que é difícil ser negra?
Acho difícil sim, pois o preconceito racial é disfarçado, mas os obstáculos são concretos. Quantas negras ocupam cargos de chefia? Um homem negro sofre, mas é muito menos discriminado do que uma mulher negra.

4. O seu pai é um militante do movimento negro, assim como sua madrasta. Você já considerou levantar a bandeira por essa causa?
Mesmo que eu não faça parte de um organização não-governamental de um partido político que se ocupe especificamente dessa bandeira, eu me considero ativa no movimento pró-negro por defender as suas razões específicas, bem como repudiar qualquer forma de discriminação contra a mulher; contra o trabalho escravo; a exploração sexual etc.

5. Como você acha que o negro é retratado pela TV?
Em termos quantitativos, de visibilidade, houve um avanço. Se antes o negro era relegado somente a papéis secundários, hoje vemos cada vez mais negros como protagonistas ou em papéis de grande expressão, como é o caso recente da personagem Preta, interpretada com louvor pela Taís Araújo. Eu mesma sou um exemplo disso, pois em Mulheres apaixonadas interpretei uma médica neurocirurgiã que tinha destaque na trama principal.

6. Não te incomoda saber que, na maioria das vezes, vamos fazer papéis de escravos ou empregadas domésticas?
É claro que incomoda, mas por outro lado, ao mesmo tempo em que o racismo velado se manifestava, acho que somava-se a isso um despreparo por parte dos atores negros, situação bem diferente da de hoje, quando assistimos atores como Lázaro Ramos, Taís Araújo (que já mencionei antes), Sérgio Meneses, Luiz Miranda, Alexandre Moreno, entre outros que me vêm a cabeça instantaneamente. Parece-me que houve um hiato entre a geração de grandes atores como, Ruth de Souza, Iléa Garcia, Milton Gonçalves, Antonio Pitanga, Zezé Motta, e essa agora.

7. Poucas pessoas sabem, mas Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras era um homem negro. Um historiador de Minas Gerais, estudioso da obra do Machado, desenvolveu um estudo em que conclui que a herança da imagem branca que se tem do Machado tem muito a ver com um processo de embranquecimento pelo qual ele passou. Ou seja, ele teve que esconder sua ascendência para conseguir se colocar como intelectual, abordando o assunto em seus contos. Você acha que ainda hoje artistas e personalidades negras têm que se esquecer - ou pelo menos lembrar menos - da sua negritude para conseguir um espaço na mídia?
Acho que infelizmente isso ainda persiste sim, mas deve ser encarado com menos julgamento. Penso que é uma necessidade do homem, independente de ser negro, branco, oriental, querer ter um espaço de pertencimento seu na sociedade. Inconscientemente para pertencer a uma família, a uma sociedade, a uma cultura, passamos por processos complexos de identificação. O negro na sua condição de escravo foi coisificado, restavam poucas referências de família, de cultura, enfim, de identidade. Não acredito que Machado tenha optado conscientemente por se embranquecer. Imagino que seu desejo de se sentir parte da sociedade, somado à falta de referências negras reconhecidas favoreceu esse processo de embranquecimento, pois nessa época, e ainda hoje, o modelo dominante era o do branco. Não estou querendo dizer que isso deve se justificar hoje - vide o horror que se tornou Michael Jackson -, porque desde a organização dos quilombos até a atual recuperação da auto-estima negra temos com fortes referências para nos espelharmos.

8. Não sei se você sabe ou se já ouviu esse tipo de comentário, mas muitas pessoas não te consideram negra. Qual é o seu argumento em relação a isso?
Já ouvi e muitas vezes e acho que isso é mais uma demonstração do quanto o preconceito racial pode ser escamoteado, ainda que não se tenha consciência disso.

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