Como uma mulher negra se conseguiu se tornar doutoranda em literatura?
É uma longa história, que é em primeiro lugar uma história de conflito, porque quando eu cheguei no Rio de Janeiro em 1973 e fui prestar o meu vestibular para letras, num primeiro momento eu tive um conflito muito grande sobre até que ponto o estudo de literatura era uma coisa que realmente teria a ver com a minha história, que era uma história de uma pessoa que vem de uma família superpobre de Belo Horizonte, ex-militante de movimento operário... Eu me perguntava como poderia usar a literatura em função de todas as questões em que eu acreditava.
Quando eu terminei o normal em BH, em 1971, não havia concurso para magistério, e eu queria dar aulas. Para entrar para o magistério em BH era na base de "quem indica", porque na verdade eram determinadas normalistas de determinadas famílias que conseguiam. Como eu vinha de uma família muito pobre e a relação que a gente tinha com as famílias na época era uma relação de patrão-empregado - inclusive quando eu terminei o meu normal eu trabalhava em casa de família -, as pessoas que poderiam me ajudar não estavam muito interessadas em arranjar para eu dar aula porque elas viam o perfil de uma futura doméstica.
Tinha até uma professora da época do primário que se propôs a ajudar, mas eu não quis, porque eu raciocinei o seguinte: eu ficaria sempre numa situação subalterna. No Rio, fiz o concurso para magistério [dar aulas] e passei. Também fiz o concurso para magistério em Niterói, passei, e nesse mesmo período [1976] comecei a fazer a faculdade de letras na Universidade Federal do Rio. Nessa época eu precisava trabalhar para ajudar minha família que tinha ficado em BH numa situação de penúria muito grande, porque quando eu saí de lá a gente estava saindo de um plano de desfavelamento, ou seja, fomos mandados embora da favela e fomos morar num lugar ainda mais longe.
O meu curso de graduação foi interrompido, no último semestre, porque eu me casei e tive uma filha com um problema congênito, então no final da minha graduação eu tive que deixar tudo. Quando ela já estava com quase nove anos que eu consegui voltar e terminar a faculdade. Mais tarde, quando o meu marido faleceu de repente, eu perdi o chão. Então voltar a estudar foi uma maneira de provar para mim mesma que eu continuava viva. Então eu fiz um curso de pós-graduação na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, depois fiz o meu mestrado na PUC-RJ [Pontifícia Universidade Católica], sobre literatura afrobrasileira,
A questão financeira também atrapalha um autor negro?
Claro que atrapalha. Se você está com um livro na rua, um produto, você tem que fazer uma divulgação, e isso custa. Com o trabalho de uma assessoria de imprensa eu consegui o retorno em um capital simbólico, de me tornar uma autora mais conhecida, mas o retorno financeiro ainda não veio com a literatura.
O que você acha da lei 10.639?
Eu acho interessante, mas tem uma coisa que tem que ser ressaltada: quando essas discussões chegam a se transformar em lei, a gente não pode perder de vista que isso foi todo um processo de questionamento, que nasce dentro da demanda do próprio movimento negro, dos professores negros, dentro de um movimento ou não, mas que estão atentos à questão da representação do negro no livro didático. Então essa lei e fruto de um trabalho nosso. Não é uma lei que caiu do céu. Mas ela também exige, o mais urgente possível, uma forma de treinamento para esses professores. Porque senão daqui a pouco vão estar assumindo essas funções muita gente que ouve o galo cantar e sai correndo atrás.
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