Nesta Escandinávia afro-tupiniquim que é o Brasil, tanto em 8 de março - Dia Internacional da Mulher - quanto no dia 21 - Dia Internacional Contra o Racismo e Todas as Formas de Discriminação - temos muito para protestar, refletir e celebrar. Há que se protestar contra o estado de quase invisibilidade permanente a que fomos relegados enquanto afro-descendentes. As representações sociais que nos cabem, sobretudo àquelas difundidas e ratificadas pela mídia, confinam as mulheres negras tão somente ao mundo do trabalho doméstico, das guardiãs das culturas tradicionais e folclóricas afro-brasileiras ou à posição de símbolos sexuais explorados pelas indústrias do entretenimento e turismo nas figuras das "mulatas que não estão no mapa".
Esses lugares socialmente arraigados no imaginário popular atribuem aos afro-descendentes a ausência de raciocínio lógico perante às vicissitudes da vida prática - uma tragédia para pais, mães e professores comprometidos em elevar a auto-estima das crianças. Para além do imaginário social, o cotidiano vivenciado por mulheres afro-brasileiras aponta para o fardo do racismo e sexismo na estruturação das oportunidades de mobilidade social. Estudos recentes elaborados pela Organização Internacional do Trabalho, OIT, mostram que todos os indicadores sociais relativos à saúde, educação, moradia, saneamento básico, mortalidade e expectativa de vida indicam que afro-brasileiros, em geral, e mulheres e crianças afro-descendentes, em particular, estão na base da pirâmide social.
Na escala de empobrecimento, mulheres afro-brasileiras recebem apenas 30% do salário recebido por homens brancos, enquanto homens afro-brasileiros recebem 50% e mulheres brancas, 70% - considerando-se trabalhadores com as mesmas condições socioeconômicas e educacionais. Portanto, se o trabalho é o instrumento fundamental na reprodução da qualidade de vida, logo se explica por que a pobreza no Brasil tem cor e gênero. Por isso, é preciso refletir sobre o porquê de há mais de vinte anos essas disparidades se manterem estáveis. Atribuir esses dados a uma mera questão de classe é no mínimo um desserviço à democracia e à justiça social.
SE O TRABALHO É O INSTRUMENTO FUNDAMENTAL NA REPRODUÇÃO DA QUALIDADE DE VIDA, LOGO, SE EXPLICA POR QUE A POBREZA NO BRASIL TEM COR E GÊNERO |
No entanto, na busca por soluções para acabar com práticas discriminatórias, sobretudo no mercado de trabalho, cientistas sociais negros ou não - mas solidários à nossa luta - têm produzido conhecimentos capazes de promover igualdades de oportunidades para todos. Nesse aspecto, há que se celebrar este ano o protagonismo das mulheres afro-descendentes. A sociedade civil brasileira não consegue alcançá-las. Há um Brasil afro-descendente que pensa, forma opinião, faz política, edita livros, revistas, produz e consome imagens e produtos culturais de boa qualidade. Além disso, a renovação teórico- acadêmica atualmente alimenta a produção intelectual internacional com estudos, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre literatura negra brasileira, com destaque para as autoras afro-brasileiras.
O nosso desafio constante é a nossa inserção no mundo presente, do século 21 - não apenas como profissionais liberais, mas como líderes comunitárias, artistas, intelectuais criativas e geradoras de consciência crítica. Ao protagonismo de mulheres afro-brasileiras conhecidas e anônimas, os dias 8 e 21 de março devem servir como afirmação permanente e espiritual de que nossas lutas por justiça social e pelo fim do sexismo e do racismo não são nem nunca foram em vão.
Vera Lúcia Benedito é doutora em Sociologia e Estudos Urbanos, e consultora de Organizações Não-Governamentais no Brasil e nos EUA