O PRETO DO ARCO-ÍRIS O arco-íris é o símbolo internacional do movimento gay, mas para os homossexuais negros ele tem uma cor adicional - a da pele
POR VALÉRIA FONSECA FOTOS: KRIZ KNACK

Wendel ainda era uma criança quando teve sua primeira experiência sexual. "Eu tinha 12 anos e meu vizinho, 15", revela. "Estávamos brincando e, antes que percebêssemos, nossas brincadeiras começaram a ficar íntimas e simplesmente aconteceu". Certo dia, por desconfiar de algo estranho entre os dois garotos, os pais de Wendel os flagraram. "Apanhei muito, meu pai tirou toda a minha roupa e me deu uma surra de cinta que marcou o corpo todo, além de proibir, entre outras coisas, o garoto de freqüentar minha casa", relembra o trauma.
Filho mais velho de uma família de evangélicos, Wendel diz ter sido criado com muita rigidez pelos pais por conta da sua igreja, a Congregação Cristã do Brasil. "Continuei na igreja, até namorei uma garota, mas me vi outra vez em situação de risco: me envolvi com o irmão dela. Aí não teve jeito: abandonei a igreja e a vida de mentiras". A história de Wendel - e, por extensão, a de milhões de homossexuais - demonstra a pressão a que costuma ser submetida uma pessoa por conta dessa orientação sexual. Não é de se estranhar, portanto, que assumi-la seja um processo longo e penoso para quase todos.
No caso
dos negros, a situação torna-se ainda mais pesada em razão da cor da pele. "Ser gay e negro é uma batalha", afirma Wendel. "Ao sair na rua, ouço muitos e muitos negros por aí dizendo que estou sujando a cor, a raça". Apesar dessa dupla carga - ou talvez exatamente por isso - o número de afrodescendentes que assumem a homossexualidade é um pouco maior do que entre os brancos. Isso é, pelo menos, o que mostra uma pesquisa inédita à qual a Raça Brasil teve acesso com exclusividade.
"SER GAY E NEGRO É UMA BATALHA, POIS O PRECONCEITO É DUPLO. TEM DE TER MUITA CORAGEM E DIGNIDADE"
WENDEL OLIVEIRA, ESTUDANTE DE DIREITO Realizado pelo Instituto DataGLS, o estudo mostra que 83,5% dos homossexuais negros se declaram assumidos, contra 80,5% dos brancos e de outras etnias. Entre os afro-descendentes, 21,6% assumem antes dos 18 anos e 40,2% até os 25 anos. "Os negros, no geral, assumem a homossexualidade de forma mais ampla, em casa e no trabalho, talvez pela condição histórica de sofrimento com o preconceito racial", afirma Sonia Alves, diretora-geral do DataGLS.
Esses números, porém, são uma faca de dois gumes. Se mais da metade dos gays sai do armário antes dos 25 anos, isso significa que um contingente ainda numeroso demora muito mais tempo, e algumas pessoas nunca chegam a esse estágio. Os que já passaram pelo processo, entretanto, acham que vale a pena. "Sou guerreiro, não dependo de ninguém e, acima de tudo, me amo e sou muito feliz do jeito que sou", afirma Wendel. É preciso reconhecer, contudo, que o processo é longo e freqüentemente penoso. Ele começa geralmente com uma descoberta que costuma ter um grande impacto, como foi o caso de Zélia Maria Barbosa (leia depoimento ao lado).
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