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  Vitória
Movidas pela luta contra o racismo e o sexismo, as mulheres negras tomam a dianteira das discussões sociais, ocupam espaço político e conquistam posições socioeconômicas de destaque

POR CINTHIA GOMES, COM DJALMA LEITE DE CAMPOS

Até mais ou menos vinte anos atrás, a mulher negra que ganhasse flores no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, geralmente achava que seu companheiro estava valorizando-a com aquele gesto. Julgava ter sorte por ter um namorado ou marido que reconhecia a sua importância. Na prática, porém, ela continuava na sombra - mesmo no movimento negro, que reivindicava igualdade na sociedade, mas paradoxalmente tratava suas mulheres com profunda desigualdade. "Havia muito machismo no movimento", conta Rosália Lemos, secretária municipal da Coordenação dos Direitos das Mulheres de Niterói, no Estado do Rio. "Nós éramos bem-vindas para arrumar as cadeiras e fazer o café, mas não para discutir nossas questões."

Muita coisa mudou de lá para cá. Embora a maioria dos indicadores sociais ainda situe as afro-descendentes na lanterna das estatísticas socioeconômicas - atrás de homens e mulheres de qualquer etnia - elas começam a fazer diferença. Segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para ao Desenvolvimento, PNUD, divulgado no fim do ano passado, o percentual de mulheres negras com diploma universitário já supera o de homens negros: 3,1% delas já têm o canudo contra 2,7% deles. Pode parecer pouco, mas é significativo, pois esses números marcam uma virada sem precedentes. "Nosso crescimento educacional nos últimos anos é espantoso", avalia Solimar Carneiro, presidente do Geledés - Instituto da Mulher Negra.

FEMINISMO NEGRO
Educação, de fato, é o caminho escolhido por muitas mulheres para romper o ciclo de desigualdade. Rosália, que também foi a criadora do Disque Racismo no Estado, é um exemplo. Trabalhando desde cedo, foi babá na adolescência numa casa onde havia muitos livros. Convicta de que suas oportunidades só poderiam vir por meio dos estudos, sempre arranjava tempo para aprender. "Mesmo não sendo minha função, eu sempre arrumava a biblioteca para poder ler", lembra.

Embora muito desse avanço se deva aos esforços individuais, uma grande parte é resultado também da organização coletiva daquilo que Rosália chama de feminismo negro. Para acabar com o papel de fazer café e arrumar as cadeiras nas reuniões, as feministas de duas décadas atrás se uniram para criar um movimento dentro do movimento. O feminismo daquela época era, sem demérito, branco e de classe média. A luta das mulheres era para ter direito de trabalhar e romper a dependência econômica dos homens da família.

"Enquanto as feministas reivindicavam mercado de trabalho, a mulher negra já trabalhava há muito tempo e suas demandas não estavam sendo atendidas por esse movimento", explica a coordenadora da ONG carioca Criola, Lúcia Xavier. Rosália complementa: "O novo feminismo negro lutava por bandeiras concretas, como creches, escolas, saúde e direitos trabalhistas, além do combate à violência doméstica e sexual".

FORMAÇÃO
Com a receita de unir educação e trabalho, as ONGs de mulheres negras têm investido cada vez mais na capacitação de lideranças e de agentes transformadores da realidade. Um dos projetos é a formação de Promotoras Legais Populares, realizado pela Criola, no Rio, e pelo Geledés, em São Paulo. O Geledés dá um curso de nove meses para mulheres já atuantes em suas comunidades ou locais de trabalho. Elas recebem noções de direito e tornam-se multiplicadoras de cidadania.

A última turma formada pelo curso era composta por 41 funcionárias e cinco voluntárias do Hospital Geral de São Mateus, zona Leste de São Paulo, que acolhem mulheres em situação de violência doméstica e sexual. A maioria delas, por sinal, já passou por alguma situação do tipo. "É muito gratificante você dar para alguém a assistência que você não teve. Depois de dois meses de casada levei o primeiro tapa, mas continuei com ele por medo. A violência só terminou depois de dezesseis anos, quando dei uma surra nele", conta uma das formandas, Juciara Souza.

Em 1992, ela saiu de casa com os três filhos "depois de ter batido, mordido, arranhado e, literalmente, chutado o marido". Enfrentando diariamente o problema, as PLPs afirmam que a agressão física é o último - e mais evidente - estágio. Antes dela, há a violência psicológica e moral. "Nesses tipos de violência, a mulher perde a auto-estima, não tem atitude nem coragem de tomar novos rumos. Elas valorizam seus companheiros e se diminuem", define a PLP Aguimar David.

Ouvir elogios à beleza de outras mulheres e só críticas à sua ou acusações infundadas de adultério são exemplos das violências sofridas pela funcionária administrativa Sandra Bernardi e pela voluntária Noêmia Costa, que também trabalham no hospital. "A mulher negra no Brasil tem o estigma de ter sido escrava, ou seja, existia para servir o homem", diz Aguimar. "Enquanto ela não se conscientizar do seu valor, isso vai continuar acontecendo."

'ENQUANTO AS FEMINISTAS REIVINDICAVAM MERCADO DE TRABALHO, A MULHER NEGRA JÁ TRABALHAVA HÁ MUITO TEMPO E SUAS DEMANDAS NÃO ERAM ATENDIDAS POR ESSE MOVIMENTO"
LÚCIA XAVIER, COORDENADORA DA ONG CRIOLA

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