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  A FÉ, UM SANTO REMÉDIO
A medicina ocidental precisa reconhecer a capacidade de cura exercida nos mais de 30 mil terreiros espalhados pelo país

POR JOSÉ MARMO DA SILVA

Diz o ditado popular que a fé remove montanhas - mas é nos momentos de aflição e mais dolorosos, quando estamos doentes e a medicina ocidental não consegue dar conta da cura, é que a fé passa a ter um papel fundamental em nossa vida. Não é à toa que cresce o número de estudos e pesquisas que mostram a importância das religiões nos tratamentos e curas de diversas doenças. As práticas terapêuticas religiosas têm mostrado aspectos positivos no enfrentamento dos problemas de saúde, assim como na manutenção do equilíbrio das pessoas. Tais práticas religiosas - ainda que algumas vezes desprezadas pela medicina ocidental - têm na fé seu principal instrumento no tratamento de doenças e precisam ser reconhecidas. É fundamental ter consciência de que existem outras maneiras de lidar com a saúde e que o saber da ciência pode e deve conviver com o saber da medicina popular.

Entre as formas de medicina utilizadas pela sociedade, temos a medicina dos terreiros, que preserva os ensinamentos repassados por nossos ancestrais africanos. São mais de 30 mil terreiros espalhados pelo país, formando uma estrutura que marca de forma significativa a cultura brasileira. Por meio de suas práticas rituais e de sua visão de mundo integradora, essas religiões possibilitam a inclusão de grande parcela da população, que encontra nos terreiros a possibilidade de vivenciar relações humanas e espirituais em um espaço de acolhimento e solidariedade. É importante lembrar que a medicina hegemônica não está preparada para interpretar e compreender certos processos doentios, como é o caso do mau-olhado e da espinhela caída. Para isso, contamos com a ajuda de terapias religiosas que dão conta da visão de mundo do doente aliviando-os do sofrimento.

OS SERVIÇOS PRESTADOS PELOS TERREIROS ENVOLVEM PRECEITOS ÉTICOS, NORMAS DE VIDA E PRÁTICAS DE CORPO ORIENTADAS PELA NOÇÃO DO AXÉ, A ENERGIA PROPULSORA DA VIDA.

No caso das religiões de matrizes africanas, podemos verificar que as práticas rituais visam o cuidado com o corpo e com o meio ambiente em que vivemos. Para elas, o corpo é a morada dos deuses e por isso deve estar sempre bem cuidado para que os deuses e deusas - sejam eles orixás, voduns, inkices ou encantados - possam continuar se comunicando com os humanos, assim como o ambiente deve merecer atenção especial, pois permite a manutenção da tradição.

Os serviços prestados pelos terreiros têm como finalidade não somente a cura e a prevenção de enfermidades mas também a promoção da saúde, envolvendo um conjunto muito peculiar de preceitos éticos, normas de vida e práticas de corpo orientadas pela noção do axé - a energia propulsora da vida. Como toda força ou energia, o axé pode aumentar ou diminuir, necessitando de procedimentos rituais para restabelecer o equilíbrio.

Muitas vezes, o acontecimento ou experiência - entendidos na lógica da medicina ocidental como distúrbios do corpo físico ou da mente - são para as religiões de matrizes africanas sinais ou manifestações da espiritualidade. Os iniciados crêem no poder da terapêutica dos terreiros exercida por pais e mães-de-santo, diante de diversas situações de adoecimento ou desequilíbrio - e daí voltamos à questão da fé que move montanhas. Se por um lado é fundamental que o povo de santo - adeptos das religiões de matrizes africanas - conte com a medicina ocidental, por outro é essencial que ela reconheça e considere a capacidade de intervenção, aconselhamento e acolhimento da medicina exercida nos terreiros.

O autor é secretário Executivo da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde e Integrante do Comitê Técnico de Saúde da População Negra do Ministério da Saúde.

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