A voz da resistência negra sempre teve passagem pela boca de Leci Brandão da Silva, essa carioca de 61 anos, nascida e criada nos redutos do samba. A paixão pelo Carnaval e pela Mangueira — e conseqüentemente pelo samba — vem de família, desde os tempos de criança, quando assistia aos desfiles na avenida Presidente Vargas. Isso provavelmente ajudou Leci a se tornar primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira. As questões sociais e políticas sempre permearam suas composições, e por duas vezes Leci foi exilada da mídia. Na primeira vez, em 1981, rescindiu contrato com a gravadora Polygram por motivos ideológicos, tendo recusadas canções com temas sociais como Zé do Caroço. A letra dizia: “Enquanto a televisão brasileira / Distrai a gente com a sua novela”. Foram cinco anos sem gravar. Mais tarde, em 1993, Leci ficou seis anos afastada das transmissões de Carnaval da Globo – “por causa de “pressões de um povo elitista”. Nessa entrevista, critica o preço dos ingressos, a atenção exacerbada às celebridades e a falta da voz de poder da velha guarda nas escolas. Para Leci Brandão, que em 2006 comenta pelo quarto ano consecutivo o Carnaval de São Paulo pela Globo, uma coisa não pode faltar para um Carnaval de verdade: a comunidade.
O CARNAVAL É HOJE UMA CULTURA BRASILEIRA TRANSFORMADA EM ESPETETÁCULO. VIROU UMA FESTA HOLLYWOODIANA” |
Raça - Leci, você ficou por um tempo afastada das transmissões de Carnaval da TV Globo. Por quê? Uma das justificativas foi que mudou-se a plástica da transmissão. É verdade?
Leci - Eu fiquei seis anos afastada. Fiz os comentários durante nove anos direto, de 1984 a 1993, pelo Rio, sempre na Globo. Quando saí, soube que houve uma certa pressão de um povo elitista, que reclamava porque eu não falava os nomes dos VIPs, das socialites. Esse povo, infelizmente, tem poder, e eles conseguiram me tirar. Aí, depois de seis anos fora, as pessoas começaram a sentir falta do nosso trabalho e daquela identificação com os nomes de gente como as baianas, o pessoal da bateria, velha guarda, casais de mestre-sala e porta-bandeira. A verdade é que eu é quem coloquei a palavra comunidade no Carnaval. Eu ia aos barracões, procurava saber tudo direitinho, falar com as pessoas, chegava com tudo anotado e falava, até porque eu acho que o dono da festa é o sambista. Então as pessoas fizeram muita pressão, e em 2000 eu voltei. Em 2002, me chamaram para comentar só São Paulo, e eu e Maurício Kubrusly demos muito certo. Com a transmissão da Renata [Ceribelli] e do Chico [Pinheiro] o quarteto está bem afinado, e nós estamos indo para o quarto ano.
Você acha que de alguma forma você incomodava – ou ainda incomoda – quando critica as escolas que não colocam rainhas da bateria da própria comunidade? Aliás, de certa forma, isso é um ataque às celebridades que acabam de assumir o posto, não?
Elas não têm culpa de serem rainhas. O meu problema sempre foi com a mídia, principalmente impressa, porque no dia seguinte ao desfile você só vê foto de rainha de bateria que já é modelo e já é famosa. Então eu acho que essas pessoas não precisam do Carnaval para aparecer. Elas têm 363 dias para isso, para serem fotografadas e badaladas, já que estão sempre nas capas de revista. Deixem esses dois dias para o samba. É só isso o que me chateia profundamente.
Você diz que o Carnaval pertence ao sambista. Mas hoje você acha que o Carnaval está nas mãos de quem?
O Carnaval hoje está nas mãos de um sistema comercial, porque, se você for observar, a própria velha guarda, que era quem antigamente fazia o papel de cerimonial da escola, que vinha à frente, hoje vem no final da escola – a Portela, aliás, até pouco tempo atrás fazia isso.
Passou a ser menos importante?
Passou a ser menos importante porque ela não tem voz de poder. A velha guarda não decide nada numa escola de samba hoje em dia. A Mangueira, no Rio, ainda tem uma coisa de sentar com os mais velhos, e eles também têm um certo acesso, um tratamento diferenciado. Em todos os eventos da Mangueira, os velhos estão presentes, o pessoal está sempre ouvindo. Acho que o fato de lá a escola ser no pé do morro torna mais difícil desvincular as pessoas, a comunidade. Além disso, a Mangueira não tem patrono, não tem dono, mas sim um presidente que é eleito pelos associados.
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