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  EM ALTO E BOM SOM
Às vésperas do lançamento do 11o álbum de estúdio do Sepultura, seu vocalista, Derrick Green torna-se referência do hard-core ao usar a força de sua voz para expor seus protestos

POR JONI ANDERSON
FOTOS: ANA LIMA


Nos anos 80, enquanto o mundo conhecia superastros do pop como Madonna e Michael Jackson, a cena musical era invadida por uma onda eclética sem precedentes. O hip hop ainda em gestação explodiria logo a seguir. A cena roqueira trazia a rebeldia e a atitude soturna de punks e góticos para a luz do dia. Bandas, alternativas ou não, invadiam as grandes metrópoles e as FMs do mundo. Em cenário tão diverso, foi num pequeno clube de Nova York que uma obscura banda de metal mudaria a vida do pequeno norte-americano Derrick Green, então com 14 anos. Era 1981. No palco, como que em transe, seus componentes tocavam um som ensurdecedor, cantavam as letras aos berros e soltavam denúncias sociais.

Bad Brains, a banda em questão, era uma das poucas do punk-rock nova-iorquino formada inteiramente por negros. Todos com dreads imensos e uma performance que hipnotizava a platéia. Foi o que bastou para selar o pacto de Derrick com a irreverência do hard core. "Não acreditei quando ouvi aquela música maluca acompanhada de uma atuação incrível", relembra. "Quis fazer parte disso porque era contra o racismo, tinha letras conscientes que pregavam a unidade. Era a música que me permitia dizer o que sentia, alto, claro e com orgulho."

TESTE VOCAL
Nascido na cidade norte-americana de Atlanta, capital do estado da Geórgia, esse filho de um mecânico com uma professora de música já mostrava personalidade desde cedo. Depois de assistir à Bad Brains, nunca mais cortou os cabelos. Começou torcendo os fios e viu os cachos se transformarem lentamente nos dreads que cultiva até hoje, aos 34 anos. Sua vida acompanhou o giro de seus cabelos.

Em 1997, após uma ruptura no Sepultura que resultou na saída do vocalista Max Cavalera, um amigo de Derrick deu a dica para ele se candidatar à vaga, que seria preenchida após um teste. Seu desempenho na música Choke convenceu e ele passou a integrar a banda. Fez as malas e se mudou para o Brasil. Hoje, sua agenda está sempre cheia. Ele passou o fim do ano concentrado com sua banda no estúdio da gravadora Trama e na masterização do CD Dante XXI - o 11o da banda - feita em Nova York.

Além de fazer shows para divulgar o novo trabalho, 2006 promete ser agitado para o Sepultura. Em março, eles devem filmar um videoclipe de uma das músicas do novo álbum. Com dezoito tatuagens espalhadas por seu 1,97 metro de altura, ele é dono de uma voz tão estranha quanto possante, que ressoa denúncias contra o abuso de autoridade, o racismo e a hegemonia norte-americana no planeta. São músicas que criticam, reivindicam, provocam, polemizam, levantam os fãs. "Minha experiência hard core ajudou a mudar a banda", diz ele.

"Foi fácil misturar os vocais aos gritos". Segundo Derrick, suas canções de protesto tornam-se muito mais fortes justamente por saírem da garganta de um negro. Os oito anos de Sepultura e o contato com o Brasil mudaram a vida de Derrick Green. Gosta tanto daqui que decidiu, em parceria com outros cinco sócios, abrir as portas, em 2003, do Bunker Lounge, um espaço alternativo, com palco e pista de dança modestos, onde se reúnem músicos, artistas, DJs e um público descolado para jam sessions e confecção de grafites ao vivo, em pleno bairro nobre dos Jardins, em São Paulo.

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