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  DO QUILOMBO À FAVELA
A criminalização das favelas no Rio de Janeiro e a participação dos negros na constituição do espaço urbano têm raízes históricas profundas

POR ANDRELINO CAMPOS

Quando debatemos sobre o espaço urbano brasileiro, algumas questões são inevitáveis. A primeira delas diz respeito à seguinte indagação: Como o espaço ocupado pelos pobres, sobretudo pelos negros, passou a ser criminalizado no Rio de Janeiro? Existe algum vínculo histórico? Qual é a origem dos preconceitos que envolvem o espaço apropriado pelos mais pobres e a favela? Essas questões me levaram a pesquisar o tema e a escrever o livro Do Quilombo à Favela.

Da pesquisa, inicialmente, esperava-se um resultado mais modesto. Tinha como objeto examinar a relação entre violência urbana e favela no Rio de Janeiro. Não se pretendia examinar a origem delas. No transcorrer do trabalho, observou- se que a relação era mais profunda. Pesquisar a violência urbana, apenas, não respondia o porquê do envolvimento dos negros no processo de constituição do espaço urbano na cidade.

A fim de verificar a origem da favela, para além do senso comum, foi preciso recorrer à história, onde foram encontradas três versões: retornados da guerra do Paraguai (1870), demolição do cortiço Cabeça de Porco, na área central do Rio (1892), e vindos da guerra de Canudos (1897). Essas versões relatam, em tempos diferentes, o uso do termo favela para designar a ocupação dos mais pobres, principalmente de negros egressos da escravidão, no espaço urbano carioca. O problema é que nenhuma delas atribui aos pobres (em grande parte constituídos pelo grupo étnico-racial negro) a condição de sujeito responsável pela história. Uma visão mais generosa sobre o tema sugere que a favela é resultado de um processo mais amplo, que envolve organizações espaciais anteriores à formação das favelas. Sendo assim, encontra- se no quilombo a estrutura mais compatível com esse entendimento.

"O QUILOMBO ESTÁ PARA O IMPÉRIO ASSIM COMO A FAVELA ESTÁ PARA O SISTEMA REPUBLICANO. AMBOS ABRIGAM UMA MAIORIA NEGRA"

Os quilombolas foram perseguidos pelos capitães-de-mato, representação do uso da força no império, enquanto as favelas, historicamente, são consideradas caso de polícia. Então, violência, deturpação do direito da pessoa, construção da cidadania, acesso restrito à cidade, qualidade de vida inadequada, falta de justiça social e preconceitos de toda ordem são alguns dos operadores simbólicos ou materializados na vida de pobres urbanos, que nos permitem fazer a ligação entre o quilombo e a favela.

O poder emanado das armas portadas por grupos que operam o tráfico de drogas de varejo em favelas influencia de maneira decisiva os mais jovens, visto que lhes faltam modelos a serem seguidos. A escola deixou de representar um ideal a ser seguido por meio da figura do professor. A casa tem a fisionomia do insucesso: presidiários, desempregados, portadores de renda abaixo da linha de pobreza, frustrações de toda monta conduzem os mais jovens a buscarem a imagem do "sucesso", do "poder", " do bem-sucedido" no porte de "fuzis milagrosos." "Morrer mais cedo não é importante, viver bem é que é importante", segundo a fala de um adolescente, ao longo da pesquisa.

A origem do fenômeno favela ganha contornos de processo, enquanto as questões étnico-raciais são discutidas como componentes espaciais, conduzindo a análise do tráfico de drogas como problema urbano e não, do ponto de vista injusto, como questão que se liga aos favelados e seus espaços de moradias.

Andrelino Campos é autor do livro Do Quilombo à Favela - A Produção do "Espaço Criminalizado" no Rio de Janeiro, e mestre pela faculdade de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desenvolveu sua pesquisa no Núcleo de Pesquisas sobre o Desenvolvimento Sócio-Espacial (NuPeD)

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