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  DOM DE DEUS
Aos 92 anos, Jamelão faz shows de até mais de duas horas sem cansar o vozeirão e atrai platéias de todas as idades

POR EDUARDO SILVA
FOTOS: PAULO PEREIRA

Ele nasceu José Bispo Clementino dos Santos. Foi no bairro de São Cristóvão, na zona Norte do Rio. Cresceu Saruê, virou Gogó de Ouro, mas o apelido que pegou mesmo foi Jamelão. O aclamado intérprete de sambas românticos - de acordo com sua própria definição - vai fazer 93 anos, em plena atividade profissional, no próximo dia 12 de maio. Há pouco mais de um mês, apresentou-se na noite paulistana em lugares que rimam com seu estilo, como o carismático Bar Brahma, no centro velho da cidade. No momento, está concentrando sua atenção no carnaval e no conteúdo de um DVD com compilações de apresentações ao vivo. Apesar de admitir que precisa cuidar da saúde, não lhe passa pela cabeça pendurar as chuteiras. "Posso estar aposentado de outras funções que exerci ao longo da vida, mas enquanto houver pessoas interessadas em me ouvir, não vou parar", promete. "É bom viver disso e, embora esteja na reta final, não custa nada cantar um pouco mais."

Para Jamelão, cantar é um dom que Deus lhe deu - e que ele exerce sem parcimônia há mais de sessenta anos. Em suas apresentações, que podem se estender por mais de duas horas, ele divide o palco com um naipe de instrumentistas que têm a convicção de ritmistas de tirar o fôlego. Acostumado a embalar corações blindados de dor-de-cotovelo - ele odeia essa expressão - e de um leque de fãs de diversas faixas etárias, o Gogó de Ouro coleciona recordes de público, como o de duas mil pessoas que ocuparam os assentos do Teatro João Caetano, em São Paulo, dentro do projeto Seis e Meia, em meados da década de 70. Ele também é sinônimo de samba há muitos carnavais, com o título de intérprete do século 20, prêmio outorgado nos anos 80 pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, a Liesa. Em julho deste ano, desfilou no São Paulo Fashion Week, considerado o maior evento de moda da América Latina.

"ESTOU APOSENTADO DE OUTRAS FUNÇÕES, MAS ENQUANTO HOUVER GENTE QUE QUEIRA ME OUVIR, NÃO VOU PARAR. EMBORA NA RETA FINAL, NÃO CUSTA CANTAR UM POUCO MAIS"

Nos anos 40, quando já ganhava algum se apresentando nas rádios, gafieiras e boates, assinou seu primeiro contrato e, desde 1949, é o intérprete do samba- enredo da Mangueira - função da qual não abre mão, assim como não se separa nem sob tortura dos elásticos enrolados nos dedos. Segundo o marido de Delice Ferreira dos Santos, a Dona Didi - com quem teve apenas uma filha, Jorceli, que lhe deu dois netos, Manoela e Tomás - eles são para quando ganhar muito dinheiro.


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