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  OPORTUNIDADE ÚNICA
Com a TV da Gente, a mídia em geral terá o desafio de rever suas posturas e ampliar a diversidade étnico-racial e cultural

POR DAGOBERTO JOSÉ FONSECA

Em meio às discussões sobre o dia nacional da consciência negra, marcando os 310 anos do assassinato de Zumbi e da destruição de Palmares, o Brasil ganhará a TV da Gente, o primeiro canal dirigido por negros. O sonho desse canal foi uma utopia dos movimentos e ONG's coordenados por negros e negras a fim de produzirem programas que dessem a devida visibilidade política, econômica e que, ainda, construiriam a auto-estima positiva nas crianças e nos jovens afro-brasileiros.

A TV da Gente é um canal criado pelo cantor, apresentador e empresário Netinho. Um afro-brasileiro que desde criança não conseguia se ver com a positividade devida na televisão. Esse canal, além de ser um investimento de angolanos e brasileiros, simboliza também a aliança dos descendentes bantus da rainha Nzinga e de Zumbi que se juntam para resistir aos programas negadores da liberdade de ser e aparecer dos negros com igualdade e diferença na mídia nacional.

A luta dos afro-brasileiros para saírem da invisibilidade e da negatividade construída pelos meios de comunicação social é antiga no país. No início do século 20, negros em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul escreviam artigos em jornais alternativos, folhetins comunitários, reivindicando direitos. Em 1915, nasceu o Menelick, primeiro jornal dirigido por negros. O nome homenageava um dos imperadores da Etiópia, primeiro país independente da África. Após esse jornal diversos outros surgiram, os mais importantes no estado de São Paulo: Getulino (1923); O Clarim da Alvorada (1924) e A Voz da Raça (1936). Esses jornais lutavam por direitos civis e sociais e visavam unir a comunidade negra local, difundindo eventos e festas, e denunciavam a exclusão social. A importância da imprensa negra na história dos movimentos negros é grande. Por meio dela manifestaram- se contra a situação sócio-econômica e política fomentadas pela sociedade racista nacional. Porém, esses jornais atingiam somente aqueles negros que sabiam ler.

No final do século 20, os negros dialogaram através da internet, construíram redes de discussões. Essas comunicações ampliaram o alcance de receptores, mas não atingiram grande parcela de negros, sem acesso a essa tecnologia. Em 1996, a editora Símbolo reforçou os anseios de positividade desse grupo social ao lançar a revista Raça Brasil.

A partir do dia 20 deste mês, as mídias escrita e televisiva no país podem, com o ingresso da TV da Gente, contar com o desafio de rever posturas político-ideológicas ao ampliar a diversidade étnico-racial e cultural, positivando negros e outros não-brancos em seus programas e em suas direções. Ou podem manter seu lugar no país de veículo difusor da hegemonia de grupos que se imaginam no norte da Europa ou se acreditam brancos como se fossem descendentes dos vikings. O fundamental é que os negros têm como ampliar o seu poder de falar e de aparecer, saindo daquilo que foi próprio dos escravizados e dos mutilados da história - o silêncio e a invisibilidade.

Dagoberto José Fonseca é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp e coordenador executivo do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE)

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