OS DONOS DA NOITE Nos restaurantes e bares dos centros urbanos, profissionais negros colhem os frutos da negritude cada vez mais valorizada e tornam-se referência de talento e estilo
ADRIANA REIS

A estética negra nunca esteve tão em alta. Vitrine de mudanças sociais, a vida noturna nos grandes centros urbanos é a prova mais evidente desse fenômeno, que se manifesta do cardápio dos restaurantes ao repertório musical nas baladas. Se há pouco mais de vinte anos, por exemplo, era comum ouvir relatos de negros barrados na entrada de uma elegante casa noturna, hoje são eles que abrem as portas a quem chegar. Moças negras têm sido cada vez mais requisitadas para o trabalho de hostess (do inglês, anfitriã) - a sensível função de representar a beleza e a personalidade do estabelecimento na chegada do cliente. "Por ter um estilo próprio, elas viram até um atrativo da casa", explica o diretor-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Sérgio Marques Júnior. "Por isso, restaurantes e bares têm recorrido a mulheres negras para dar um clima mais arrojado."
Essa tendência coincide com uma valorização da própria profissão, tratada até recentemente como um trabalho temporário para recepcionistas de luxo, atraindo apenas modelos. Além de lindas e simpáticas, elas passam a assumir outras responsabilidades, como fazer reservas, levar os clientes até a mesa e explicar o funcionamento da casa, ajudando, de certa forma, a administrar o local. "Trabalho seis dias da semana, entro às quatro da tarde e fico até o último cliente", conta Adriana Tobias Arantes, hostess da casa noturna Grazie a Dio, em São Paulo. "Além de recepcionar os visitantes na porta, também exerço a função de gerente, ou seja, faço a casa funcionar."
A profissionalização chegou a tal ponto que há dois anos a função de hostess foi regulamentada e criou-se uma entidade para a categoria, com sede em São Paulo, uma das cidades que mais abrem postos de trabalho nesse setor. Com tanto aprimoramento, as exigências são cada vez maiores. "Os proprietários ficaram mais seletivos", afirma o presidente da Associação de Hostess e Recepcionistas, Marcelo Henrique Cardoso. "Antes, os donos de restaurantes só viam a beleza, mas agora conta também o profissionalismo." Em compensação, os holerites acompanham a mudança, chegando a R$ 4 mil.
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