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  LARANJAS NÃO SÃO MAÇÃS
Ao se espelhar nas ações afirmativas nos Estados Unidos para discutir o sistema de cotas no Brasil, comete-se o perigoso erro de comparar sociedades absolutamente diferentes

POR JEFFREY LESSER E JERRY DÁVILA

Entre 1998 e 1999, lecionamos para alunos da Universidade de São Paulo (USP) sobre relações raciais nos Estados Unidos. Numa aula, apresentamos o filme Mississipi em Chamas. Na história, o ator Willem Defoe, um jovem agente do FBI, investiga o assassinato de ativistas dos direitos civis cometido por racistas. Profissional, Defoe se sente impotente por não conseguir punir os culpados usando apenas a lei. O momento catártico do filme acontece quando o parceiro de Defoe, um agente "das antigas", interpretado por Gene Hackman, recorre à violência.

Apresentamos o filme duas vezes. Numa sessão, a platéia era composta por jovens graduandos, e na outra, por alunos um pouco mais velhos. Os primeiros se agitaram quando Hackman recorre à violência por conta própria. Os outros, que viveram sob parte do regime militar, chocaram-se com a glorificação do uso de meios violentos.

Essa experiência mostra maneiras de interpretar o papel do Estado em questões sobre raça e justiça, não apenas no Brasil e nos Estados Unidos, mas também entre brasileiros e norte-americanos. Apesar das diferenças, é consenso que o racismo e a desigualdade social na sociedade atual, tanto num país quanto no outro, não desaparecem sozinhos.

O acesso ao ensino superior no Brasil, assim como nos Estados Unidos, é o campo no qual novos mecanismos estão sendo usados como forma de reverter séculos de políticas oficiais e práticas institucionais promotoras de desigualdades. Portanto, não é de se admirar que tanto os defensores quanto os detratores do sistema de cotas e ações afirmativas no Brasil busquem experiências nos Estados Unidos

No entanto, as cotas brasileiras e a ação afirmativa norte-americana não são sinônimos. As universidades brasileiras e norte-americanas não possuem os mesmos papéis sociais, culturais ou educacionais. Após ter lecionado na USP e visto como o acesso à universidade é construído no Brasil, via cursinhos e vestibulares, é difícil imaginar dois sistemas mais díspares - apesar de ambos terem um papel excludente em relação a certos grupos e de serem vistos como meios de ascensão social.

A ação afirmativa existe nos Estados Unidos, mas as cotas são ilegais lá. Os critérios se baseiam num amplo e variado leque de quesitos, que vão de notas e cartas de recomendação a habilidades especiais, como esportes e música. É que desde os anos 60, a universidade é vista lá como uma tentativa de criar uma sociedade ideal. Assim, elas buscam formar corpos estudantis que representem a sociedade. Na lógica de uma universidade norteamericana, alunos com notas altas não são mais importantes do que os com um histórico religioso ou mestres de xadrez.

Esses universitários que assistiram a Mississipi em Chamas tiraram lições diferentes por motivos ligados às suas experiências. O debate sobre cotas e ações afirmativas não teria que, igualmente, debater mais sobre experiências locais do que comparar maçãs com laranjas?

Esses universitários que assistiram a Mississipi em Chamas tiraram lições diferentes por motivos ligados às suas experiências. O debate sobre cotas e ações afirmativas não teria que, igualmente, debater mais sobre experiências locais do que comparar maçãs com laranjas?

Jeffrey Lesser é professor de História e diretor do programa de estudos da América Latina e Caribe na Universidade Emory (EUA). É autor de Negociando a Identidade Nacional: Imigrantes, Minorias e a Luta pela Etnicidade no Brasil, Editora Unesp, 2001.

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