60 Anos
de palco

A atriz Ruth de Souza celebra 60 anos de carreira com
homenagens no Rio e em São Paulo, vira tema de exposição de fotos e dá
nome a sala de teatro
Ao completar este ano bodas de diamante nos palcos, Ruth de Souza é puro
entusiasmo. "O ruim da data é que as pessoas fazem as contas e descobrem
que eu tenho mais de 30 anos de idade", brinca ela, que em 60 de atuação
coleciona prêmios e reconhecimento. E a idade, bom, isso é um segredo
guardado a sete-chaves.
A atriz debutou na carreira em 1945, no Teatro Experimental do Negro,
fundado pelo ator - e depois senador - Abdias Nascimento. Ruth nasceu
no Rio de Janeiro numa família de origem simples. Foi a primeira atriz
negra a pisar nos palcos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a
peça O Imperador Jones. Na década de 50, recebeu bolsa para estudar nos
Estados Unidos. Por Sinhá Moça, concorreu como melhor atriz em Veneza,
junto com estrelas como Katherine Hepburn. Em 1998, recebeu o Prêmio Ministério
da Cultura pelo conjunto de sua obra, mas, incansável, continua ativa.
NOME DE PRÊMIO
Motivo para o bom humor é o que não lhe falta. Na lista das homenagens
está a inauguração, em maio, do Teatro Ruth de Souza, no Museu Afro-Brasil,
em São Paulo, uma iniciativa de Emanoel Araújo, criador da instituição
e fã assumido da atriz. "Ela tem um desempenho excelente", elogia. "Lamento
apenas vivermos numa sociedade que ainda dá tão pouco espaço para os negros.
Ao vê-la comemorando 60 anos de carreira eu olho para sua imagem e penso:
'ela nunca teve um papel de maior destaque'. Será que ela não é uma grande
atriz?", ironiza.
Quem passar pelo museu poderá ver painéis de fotos de Ruth em início
de carreira. Referência para atrizes que hoje brilham em papéis centrais,
como Taís Araújo e Camila Pitanga, Ruth também é tema de uma exposição
de fotos no Sesc do Flamengo, no Rio. Outra homenagem à atriz veio da
Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, com criação de um prêmio
de dramaturgia que leva o seu nome. "Sou uma pessoa privilegiada. Nunca
parei de trabalhar", comemora. "Todo ano é uma peça, uma novela, um filme.
E isso me dá muita alegria porque, além de adorar o que faço, sei que
essa continuidade de trabalho é rara numa profissão tão cheia de altos
e baixos."
"SOU
UMA PESSOA PRIVILEGIADA. NUNCA PAREI DE TRABALHAR. TODO ANO É UMA
PEÇA, UMA NOVELA, UM FILME"
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PIQUE DE INICIANTE
As dificuldades que enfrentou na carreira ela aprendeu a superar pouco
a pouco, conquistando o reconhecimento pela vida dedicada à arte. Prova
disso foi o convite que recebeu para dar as boas-vindas às mais de 2 mil
pessoas que participaram da Conferência Nacional de Promoção da Igualdade
Racial, em junho. Diante de seu depoimento, gravado e transmitido na cerimônia
de abertura, o público - formado por movimentos muitas vezes divergentes
- se emocionou e respondeu com calorosos aplausos.
Lançado no mês passado, o filme Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo,
é um de seus grandes trabalhos, que lhe valeu o kikito de melhor atriz
no Festival de Gramado do ano passado. "Trabalhei com uma equipe bonita,
esperançosa e entusiasmada de artistas negros, responsável pela produção
e direção do filme," elogia Ruth, que também faz parte do elenco de Primavera,
de Carlos Porto, em que interpreta três personagens. "Estou curiosa para
ver a receptividade do público", conta, com a mesma ansiedade e o esperançoso
brilho nos olhos de uma iniciante.
Sandra Almada
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