ANJO NEGRO Com uma voz comparável apenas a de grandes divas, como Sarah Vaughan e Bessie Smith, Virgínia Rodrigues é tocada nos quatro cantos da Europa e dos Estados Unidos
POR SANDRA ALMADA FOTOS DANIEL BENASS

A cantora baiana Virgínia Rodrigues tem como marca a singularidade. A meio-soprano sustenta tons graves e agudos como poucas no mundo. O efeito é tão inusitado que Caetano Veloso conta que, há dez anos, quando a ouviu cantar pela primeira vez, não conseguiu controlar a emoção e chorou. A razão? A voz esplêndida, cujo timbre é um mix do que se ouve quando se está diante das grandes intérpretes de jazz e de música clássica. A crítica e o público nacional e internacional são unânimes ao afirmar que Virgínia se compara a grandes divas do jazz como Sarah Vaughan, Nina Simone e Bessie Smith. "Ela é a nova voz da música brasileira", estampou o jornal norte-americano The New York Times.
Apesar de não seguir a religião católica, Virgínia começou a carreira cantando em igrejas de Salvador e do interior da Bahia. "Confesso que não esperava que fosse chegar aonde cheguei", diz a cantora, influenciada pelo erudito, popular e pela cultura afro-brasileira. O resultado, um verdadeiro melting pot, não é fácil de ser classificado. E, para complicar, sua música não é tocada no Brasil no rádio nem na TV. Já na Europa e nos Estados Unidos seu público costuma encher espaços como o Carnegie Hall, em Nova York. "Já fiz cinco turnês pela Europa e este mês volto a cantar nos Estados Unidos. Os estrangeiros têm consciência da beleza e da importância da música brasileira. Já conheciam Tom Jobim. Queriam conhecer uma coisa nova. E fiquei nesse lugar", comemora.
Virgínia é crítica quando o público brasileiro reclama que não aparecem cancantores
novos. "As pessoas, no Brasil, têm o hábito de só querer ver quem está na mídia. Tem muita coisa que elas não dão importância. Tem gente nova e boa, sim", afirma, categórica. Foi brincando nas ruas de Salvador que Virgínia passou sua infância. Filha de uma empregada doméstica e de um vendedor de picolés, a menina aprendeu a driblar dificuldades se apoiando na capacidade de imaginação tão característica das crianças. "Minha infância foi simples, mas feliz", diz. "Não tinha TV, som, rádio, mas a gente brincava na rua."
A VOZ DO CORO
Na adolescência, Virgínia começou a sonhar em ser artista. "Eu ouvia Bidu Saião. Lia revistas para adolescentes e muita fotonovela. Eu queria simplesmente ser cantora. E fui estimulada. Por isso, passei a querer cantar em programas de calouros", recorda-se. Virgínia, a princípio, teve como público os freqüentadores das igrejas nas quais participou de corais. Foi nesse ambiente que conheceu o racismo.
"Nas igrejas, as meninas negras nunca eram escolhidas para serem anjos nas festas. Não entendia por que eu não era chamada nessas ocasiões. Você começa a pensar: 'será que o negro é coisa do demônio?' Não entendia que era discriminação", lembra. Enfrentar o preconceito desde menina fortaleceu a personalidade da artista. "Tenho uma boa relação com a minha cor", contou Virgínia. "Minha mãe sempre me ensinou que ninguém é pior ou melhor que a gente." "Quando descobri, aos 25 anos, que o Brasil é racista, entrei em depressão.
"QUANDO DECOBRI, AOS 25 ANOS, QUE O BRASIL É RACISTA, ENTREI EM DEPRESSÃO" Vi que alguns comentários sobre mim e as pessoas da minha cor tinham um significado diferente do que eu entendia. Isso me deu uma revolta, um verdadeiro pavor de gente", confessa, com tom entristecido.
Versátil, a cantora chegou a trabalhar como empregada doméstica, manicure, cantou em festas de casamento, até entrar, em 1994, no Bando de Teatro Olodum, em Salvador. "Saí em 1996, quando gravei Sol Negro, produzido por Caetano Veloso e, desde então, ficou difícil conciliar discos, shows e teatro", diz. Foi por intermédio de seu ex-diretor teatral, Marcio Meirelles, que ela conheceu Caetano Veloso. "O Caetano realizou o sonho de uma menina de subúrbio, para quem nem ele sabe a importância que tem. Eu nunca tive coragem de falar disso com ele", emociona-se.
Com três discos no currículo e prestígio em alta, Virgínia Rodrigues, adepta do candomblé há dez anos, agradece aos orixás toda vez que sobe ao palco. Contratada há quatro anos pela gravadora alemã Deutshe Gramophone, Virgínia aposta no trabalho árduo e no talento para construir sua trajetória. "O traço de minha personalidade mais marcante é não voltar atrás", diz. "Se firmo uma coisa, está firmado. Finco pé, vou devagar e chego". E onde Virgínia Rodrigues pretende chegar? "Quero ver minha música rodando o mundo inteiro." |