NOSSO JORGE Aos 35 anos, o ator e músico atinge seu melhor momento na carreira. Lota casas de espetáculos na Europa, grava CD em Paris e ainda atua em filme de Hollywood. Sua maior glória, diz ele com orgulho, é ser negro, brasileiro e reconhecido no exterior
POR JONI ANDERSON FOTOS: GALOPIDO PRODUÇÃO: CARMEN FERREIRA E KAREN NEORAL

Jorge Mário da Silva, 35 anos, poderia ter sido borracheiro. Também negou a oportunidade de seguir carreira como marceneiro, relojoeiro, office-boy e contínuo de banco. Nascido em São Cristóvão e criado em Belford Roxo, um dos municípios mais carentes e violentos do Rio de Janeiro, ele poderia sequer ter chegado à vida adulta. Poderia não ter estudado, já que 84,8% dos jovens entre 15 e 24 anos de sua cidade têm menos de quatro anos de escolaridade. Ou poderia, então, ter sido vítima de uma chacina, como a que tirou a vida de seu irmão do meio, Vitório. Jorge poderia ser um mendigo sobrevivente das ruas cariocas, condição que ele experimentou por três anos. Eram muitas as escolhas, mas ele optou pela arte.
Descobriu o teatro, onde pôde exorcizar os fantasmas que o atormentavam. Autodidata, encantou-se com os instrumentos musicais e com eles criou um som único e contagiante. Cool, low profile e alternativo são alguns dos muitos adjetivos que ganhou. Adotou nome artístico que impõe respeito, revelando a seriedade e o compromisso com sua carreira. Virou Seu Jorge.
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| "FOI A MÚSICA QUE ME FEZ MUDAR. GANHEI UM VIOLÃO E APRENDI A TOCAR SOZINHO" |
Versátil e inquieto, Seu Jorge é daquelas figuras difíceis de se classificar. Músico que atua? Ator que compõe? Compositor que faz performances? É do tipo popular, caiu no gosto da juventude, toca nas rádios comerciais. Mas também esgota ingressos nos shows pela Europa. Seu Jorge lançou recentemente seu segundo álbum solo, batizado com o provocativo nome Cru, gravado em Paris. Seu primeiro trabalho, o CD Samba Esporte Fino, foi elogiado pela crítica e aplaudido pelos fãs.
Desde sua primeira experiência com a música, o grupo Farofa Carioca (dos anos 90), Seu Jorge investe em um som que mescla groove, pop e samba. É a mistura que deu certo. Mas Seu Jorge também está no cinema. O personagem Mané Galinha que ele interpretou em Cidade de Deus (de Fernando Meirelles, 2002) expôs ao público um talento absolutamente convincente.
Publicações estrangeiras como Dazed & Confused e Vogue passam a apontá-lo como a sensação contemporânea do Brasil e lhe renderam um convite de Hollywood para atuar no longa A vida marinha com Steve Zissou - do diretor Wes Anderson, lançado no Brasil em março. Também neste ano, atuou ao lado de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres no filme Casa de Areia, de Andrucha Waddington, mais uma vez recebendo elogios por seu trabalho. Casado com Mariana, pai de Flor de Maria e Maria Aimée, Seu Jorge marcou seu espaço na mídia e parece não ter hora para ir embora. E se além do talento a sorte conta muito para quem é celebridade, pode-se dizer que para esse filho de Oxóssi e devoto de São Jorge, ela é pródiga. Quem era da rua hoje faz do mundo a sua casa.
Raça - Ator, cantor, compositor, instrumentista, produtor, garoto-propaganda... Afinal, que palavra melhor define
Seu Jorge no momento?
Seu Jorge - Serenidade.
E qual é o peso dessa palavra na sua vida pessoal e profissional?
É o peso da conquista. Um estado muito cobiçado e desejado pelas pessoas, assim como é poder alimentar-se, trabalhar, amar, dormir... Serenidade é uma palavra que tem o tamanho da sua medida. É a meta de todo o mundo. No trabalho, por exemplo, procuro ter o mínimo de conforto, do contrário não tem graça. Como brasileiro, tenho uma certa sensação em relação ao mundo que só vejo aqui: a fé. É isso que faz a diferença.
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