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  REVOLUÇÃO NA PRATELEIRA
Nove anos depois do lançamento de Raça, a indústria de cosméticos lota as gôndolas de produtos específicos para o negro e abre as comportas de um mercado reprimido

ADRIANA REIS E SILVANA REGINA INÁCIO

Onde você estava em setembro de 1996? Naquele mês, o Talebã, o regime que abrigou Osama Bin Laden, tomou Cabul, a capital do Afeganistão. Mas se os Estados Unidos não estavam preocupados com isso, por que você estaria? Um dia depois, nasceram prematuros os filhos gêmeos de Pelé. Enquanto a Argentina parava por causa de uma maciça greve geral, a economia brasileira parecia ir bem, registrando em São Paulo a menor inflação mensal desde 1958. Em meio a esses fatos, chegava às bancas o primeiro número de Raça Brasil.

Até então, milhares de mulheres iam aos supermercados, farmácias e lojas de cosméticos e voltavam para casa desapontadas, com xampus, por exemplo, cujos rótulos estampavam fotos de modelos loiras com cabelos lisos e compridos. Por mais que se procurasse, praticamente não havia nenhum produto com referência aos cachos e fios crespos - caso de 60% das brasileiras, segundo dados do Sipatesp (Sindicato da Indústria de Perfumaria e Artigos de Toucador no Estado de São Paulo). Por mais óbvios que fossem os números, no entanto, os fabricantes ignoravam um expressivo mercado consumidor. O sucesso instantâneo de Raça acordou o setor.

Nove anos depois, produtos de todas as linhas, tipos e marcas disputam espaço nas gôndolas e brigam para chamar a atenção das consumidoras negras. Uma infinidade de xampus, condicionadores, cremes para pentear, desodorantes e sabonetes exibem lindas e bem produzidas imagens de negras como garotas-propaganda de seus produtos. Definitivamente, a indústria de cosméticos descobriu que existe um público consumidor considerável. "Antigamente, não existiam produtos específicos. Hoje é possível encontrar, nas perfumarias, prateleiras direcionadas a nosso tipo de cabelo e maquiagem em grande variedade", observa a recepcionista Lucina Cristina do Nascimento, 27 anos. Ela comemora essa mudança e defende uma expansão ainda maior. "O mercado tem que melhorar muito ainda. Algumas empresas não rotulam os produtos como étnicos, o que às vezes causa dúvida", queixa-se.

DEMANDA REPRIMIDA

Após Raça mostrar em suas páginas a beleza negra brasileira com matizes até então desconhecidos, as mudanças nesse setor começaram a surgir. Segundo o presidente da Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Beleza, João Carlos Basílio), as grandes empresas passaram a investir na área ao se deparar com a demanda reprimida. "Na minha avaliação, os produtos começaram a surgir a partir do momento em que as empresas perceberam a demanda", aponta. ". o setor que deve crescer muito nos próximos anos."

Estatísticas comprovam a expansão de produtos étnicos. De acordo com dados da Abihpec, sozinho o segmento de cabelos movimentou R$ 950 milhões em 2004 e deve faturar cerca R$ 1,1 bilhão neste ano. Esse mercado segue crescimento médio de 51,4% em 2004 e tem uma projeção de crescimento para 2005 de 18,6%. Há, portanto, um claro investimento das indústrias na área étnica, especialmente focado no público feminino negro.

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