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  SACUDIM, SACUDEM
Movimento musical de grande projeção nos anos 60 e 70, o samba-rock cai nas graças da nova geração e dita o ritmo nas pistas de dança

ADRIANA REIS
FOT0:KRIZ KNACK

Sacundin, sacunden. Os primeiros passos vêm tímidos e desajeitados. O sorriso sem graça por conta do tropeço é sinal da pouca intimidade com os movimentos. A jovem inquieta dama abaixa a cabeça por alguns segundos, respira fundo e mais uma vez recomeça: dois passos para a direita, dois para a esquerda. Sacundin, sacunden. "Não esqueça a ginga", murmura para si mesma. Apoiada no ritmo do cavalheiro, ela fecha os olhos e se prepara para os rodopios com a ansiedade de quem espera a vertigem de uma montanha- russa. Sacundin, sacunden.

Passam das dez da noite de domingo, véspera de um dia de trabalho, e a galera lota o bar localizado no coração das baladas de São Paulo, o bairro de Vila Madalena. Assim como a inquieta dama, centenas de jovens ocupam cada centímetro da pista, dedicados a aprender, treinar e se divertir com o suingue, uma eclética mistura de guitarra com pandeiro e cuíca. Sacundin, sacunden. E não pára de chegar mais gente. Do lado de fora da casa, serpenteia uma tortuosa fila de jovens, que só esperam a chance de balançar, conduzidos pelo ritmo contagiante que até pouco tempo eles só conheciam pelo nome: samba-rock.

Movimento que nasceu nos anos 60, o samba-rock nunca foi tão apreciado quanto agora. Pela primeira vez, ele sai da periferia e dos bailes negros tal como nasceu - misto de gênero musical, suingue e dança de salão - para ganhar a simpatia de uma classe média que, em passado recente, cultuava o monocórdico bate-estaca techno. O ritmo vem invadindo bares e casas de show paulistas das mais variadas tendências e já ensaia uma expansão para outros Estados e países. O fenômeno é surpreendente. Os jovens cantam em coro músicas que foram compostas quando suas mães ainda eram adolescentes e se empenham em acertar passos para lá de complicados. Por isso, várias casas noturnas colocam à disposição dos seus clientes um grupo de professores para dar aulas a partir do anoitecer, quando a pista ainda não foi tomada pelos baladeiros mais experientes da cidade.

"NÃO FOI TÃO DIFÍCIL APRENDER A DANÇAR O SAMBA-ROCK. COMECEI A TOMAR AULAS NO CARIOCA CLUB, OS PROFESSORES INICIARAM PELO BÁSICO"

PATRÍCIA PAPA, UNIVERSITÁRIA

PARA QUALQUER IDADE

A diversidade é outra marca dessa nova tendência, algo inimaginável até poucos anos. Um exemplo é a inusitada integração entre os jovens e a geração de seus pais. Sem isso, a galera não teria com quem aprender os intrincados passos. Outro é o interesse comum que une negros e brancos nas pistas, como as amigas Joyce Alves e Patrícia Papa. Foi Joyce quem apresentou para a amiga os encantos do samba-rock, que ela aprendeu a gostar desde criança vendo pais e tios dançando nas festas de família. Já Patrícia só conhecia o samba-rock pelo nome. Contudo, como adorava dançar, aceitou o convite da amiga. "Via os casais dançando e achava lindo", afirma. "Decidi que também aprenderia."

Apesar do convívio com a dança em casa, Joyce, porém, tinha um problema. "Eu sempre curti, mas, para meu lamento, era a única na família que não sabia dançar", recorda. "Não me conformava." Há um ano, ela conheceu o Carioca Club e soube que lá havia aulas. "Tomei coragem, convidei a Patrícia e começamos a freqüentar", diz. Poucos meses depois, ela fez uma surpresa. "Tivemos uma festa na casa de um amigo", conta. "Minha mãe ficou de queixo caído, encantada por me ver dançando", orgulha-se.

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