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Da arte à política, eles se destacaram em suas áreas e foram eleitos os negros mais influentes nos últimos doze meses

POR CARLOS DIAS E DAYANNE MIKEVIS

Quando Raça Brasil foi lançada, em setembro de 1996, boa parte dos negros de maior destaque no Brasil estava restrita à música e ao futebol - geralmente os setores mais democráticos da sociedade. Nove anos depois, eles começam a ocupar espaços em áreas mais sensíveis e diversificadas. Essa é, pelo menos, uma conclusão que se pode tirar a partir do ranking deste ano dos negros mais influentes dos últimos doze meses. A comissão julgadora* elegeu, por exemplo, representantes do Executivo paulista e do Judiciário federal, um sinal de participação de destaque no poder - condição básica para o desmantelamento de qualquer forma de racismo.

O advogado Hédio Silva Júnior, assumiu, em maio, o posto de secretário da Justiça de São Paulo e já teve votação para estar entre os dez mais deste ano. "- Seu crescimento profissional e suas posições firmes e conscientes são de muita importância como referencial ético para as comunidades negras", justificou um de seus eleitores, o senador Paulo Paim. Mestre em Direito Processual Penal e doutor em Direito Constitucional, Hédio tem uma trajetória profissional de dedicação a cidadãos carentes. Militante no movimento negro desde os anos 70, ele trilhou o caminho do Direito movido pelo fato de o racismo ser raramente discutido juridicamente, embora acredite que seja a maneira essencial para equacionar a questão.

O mesmo compromisso com a questão racial foi o motivo da escolha do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Joaquim Barbosa para o ranking de Raça. Além de ter feito carreira no Ministério Público Federal, construiu simultaneamente uma brilhante trajetória acadêmica, como catedrático no Brasil, na França e nos Estados Unidos. Foi na Universidade de Columbia, em Nova York, que nasceu seu livro Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da igualdade - A experiência dos EUA. Lançada em 2001, a obra é considerada referência nessa questão, que tem dividido opiniões e provocado debates acalorados e passionais. "É um vencedor", elogia o ator Mílton Gonçalves, seu principal eleitor. "Ele é motivo de orgulho de todos nós por ter chegado onde chegou com sua competência, esforço e méritos. É um bom representante do potencial dos negros."

ARTE POLITIZADA

As relações com o poder, no entanto, nem sempre são tranqüilas para todos. Talvez por isso mesmo Emanoel Araújo, o diretor do Museu Afro-Brasil, em São Paulo, esteja na lista deste ano. Nomeado no início do ano secretário municipal da Cultura, ele se demitiu em abril. Ao sair, Araújo deixou uma extensa carta ao prefeito José Serra, que chegou à imprensa. Mais do que uma carta de demissão, tratava-se de um manifesto em defesa da cultura e contra a política tucana para a área. Sua luta em defesa do museu - que agora corre até o risco de ser fechado pela prefeitura - é outra importante razão para sua votação expressiva na enquete. Depois de dirigir por oito anos a Pinacoteca do Estado, o escultor baiano é um dos grandes responsáveis pela fundação do primeiro museu dedicado à arte negra, criado no governo Marta Suplicy.

GILBERTO GIL E MV BILL FORAM ESCOLHIDOS POR FAZER, CADA UM A SEU MODO, POLÍTICA E ARTE AO MESMO TEMPO

Pela interação do poder com as artes, figura entre os mais votados o cantor, compositor e ministro da Cultura, Gilberto Gil - um nome que dispensa apresentações, reconhecido entre os maiores nomes da Música Popular Brasileira. Mesmo em meio às denúncias de corrupção no governo, sua imagem passa incólume. Para vários de seus eleitores, ele se destacou nos últimos doze meses por não ter cedido às veleidades da política. Capaz de ir trabalhar em seu elegante gabinete nas vestes de linho branco características do candomblé, ele está longe de ser tanto um ministro convencional quanto um artista típico. Ao defender a flexibilização da propriedade intelectual - ou seja, facilitar na Internet o acesso à música -, ele demonstra ambas as coisas. Ele critica o que chama de "fundamentalistas do controle absoluto da propriedade" e diz que a "visão feudal" de governos e empresas emperram o crescimento econômico e ameaçam a democracia cultural que a Internet

Outro nome entre os eleitos deste ano que politizam a arte é MV Bill. Rapper, coordenador de trabalhos sociais em comunidades carentes, intelectual, produtor e agora escritor. É extenso o currículo de Alex Pereira Barbosa, alcunha que adota aos que insistem em que tenha um "nome", ou simplesmente MV - Mensageiro da Verdade - Bill, nascido e criado na Cidade de Deus. Inquieto e crítico, ele convive com a pobreza e as injustiças sociais desde que se entende por gente. Foi o fundador da Cufa, a Central Única das Favelas, uma organização políticocultural ligada ao hip hop. Tachado de radical em seu discurso e em sua postura, ele conquistou o respeito da sociedade brasileira ao desenvolver uma importante pesquisa visitando inúmeras favelas pelo país. O resultado deste trabalho foi publicado no livro Cabeça de Porco, lançado em 2005.

Quem está na lista deste ano e também sentiu na pele o que MV Bill descreve em seu trabalho é José de Paula Neto, conhecido artisticamente como Netinho. Ele cresceu em um dos blocos da série de conjuntos habitacionais Cohab, em Carapicuíba, uma das cidades mais pobres e violentas da Grande São Paulo. Aos 7 anos trabalhou vendendo doces em trens e teve um irmão morto por policiais. Seu sucesso começou quando era vocalista do grupo Negritude Jr., que o teve por dezesseis anos. Depois de uma série de incursões bem-sucedidas na televisão, conseguiu em junho passado uma concessão de TV, a primeira que será direcionada ao público negro.

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