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  A POLÊMICA ESTÁ NO AR
Artistas negros roubam acena na novela A Lua me Disse e discutem até que ponto é positivo debochar de nós mesmos

POR SANDRA ALMADA
FOTOS: MARCELO CORRÊA

Entre os anos de 1964 e 1965, o telespectador brasileiro emocionava-se até as lágrimas com a atuação da atriz Isaura Bruno, que interpretava Mamãe Dolores, importante papel na novela O Direito de Nascer, da extinta TV Tupi. O que não se imaginava naquela época é que, pelas mãos de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, o público brasileiro, ao contrário de chegar à comoção causada por Isaura Bruno, fosse "se acabar de tanto rir", com o humor escrachado de outras grandes artistas negras: Mary Sheila e Zezeh Barbosa, ou, melhor, Whitney e Latoya, as popularíssimas personagens de A Lua me Disse.

As duas são capazes de dizer barbaridades e levar o povão às gargalhadas, ao expressar a rejeição à própria raça. Integram, ao lado de outros grandes atores, como Chica Xavier, Isabel Fillardis, Jorge de Sá e Roberta Rodrigues, personagens de uma família negra que tem peso na trama das 7 da noite, da Rede Globo. Mas a novela vem causando polêmica entre os negros brasileiros e alguns movimentos sociais. Afinal, é bom ou ruim levar problemas tão sérios, como o racismo dos negros contra si próprios para a telinha na forma de comédia? Raça Brasil abriu o debate.

Raça Brasil - Mary Sheila, como é quando você sai às ruas?

Mary Sheila -
A receptividade tem sido ótima. No início eu passei por um pouco de dificuldade porque as pessoas não sabiam aonde levaria esse humor meio negro, já que elas [as personagens Whitney e Latoya] são vilãs cômicas. Mas hoje em dia acho que o público já está entendendo a proposta do personagem. Chica Xavier - O povo é a favor das meninas. Tem gente que, na caixa do supermercado, me cobra: "Bota aquela gente para correr" [Risos].

Raça - Mas o público tem sempre esta reação positiva?

Mary
- Uma vez, num restaurante, eu cheguei com uns amigos negros. Era uma "nuvem negra" chegando. Quando fui ao banheiro, uma menina, acompanhada de uma colega, chegou e falou: "Nossa! É aquela menina do personagem da chapinha de alisar cabelo!" E eu fiquei calada, na minha. Aí ela perguntou para a amiga: "Você não vai falar com ela? A outra respondeu: "Não! Não quero "fechar" [concordar] com esse negócio de se falar mal da minha raça. Tô fora. "

Chica
- Não sou contra pintar os cabelos de loiros. Por que não podemos alisar os cabelos? A minha personagem, a Dionísia, faz babyliss. Mulher é assim mesmo, quer tudo o que está na moda.

Zezeh Barbosa
- Eu tenho falado que o mundo está de cabeça para baixo. É um universo de "crilouras". Para ficar igual às negonas, botam silicone nos lábios, na bunda, até na panturrilha. Então, por que não eu? A gente coloca o cabelão, mas elas colocam a bunda, a boca, a perna das negras. Eu saio, às vezes, com este cabelo lisão, que eu acho lindo, mas a minha é outra: eu uso tranças. Eu acho que o próprio negro tem que ter orgulho dele, sim! Tem que se achar bonito, sim! Quer colocar o cabelo de qualquer cor, coloca. Mas ele tem que saber que é um negro que está fazendo tudo isso.

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