Não deixaram meu filho se defender O cabo aposentado Jonas Sant'Ana, 50 anos, conta como perdeu o filho Flávio, de 28, morto pela Polícia, em São Paulo, ao ser confundido com um ladrão
Depoimento dado a Conceição Lourenço
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| Com a namorada, Anita, planos de ficar no Brasil |
Me casei aos 22 anos, em 1975. Conheci Marina, minha primeira esposa, numa
festinha na casa de amigos, aqui na zona leste. Não namoramos nem seis meses
e nos casamos. Fomos morar na Lapa. Neste mesmo ano fiz exame pra Polícia
e passei, e lá fiquei 24 anos. Naquela época o policial servia à população.
Meus filhos chegaram logo. Primeiro a Marinela, depois o Flávio, o Robson
e o Tiago. Marina não trabalhava fora, só cuidava das quatro crianças. Nunca
fui de bater em filho. Eu acho que bater em criança pode criar uma revolta
e o filho não se torna seu amigo. Gosto que eles tenham responsabilidade.
O dinheiro é duro pra ganhar e fácil de gastar. Desde que eu entrei na Polícia
trabalhei em dois empregos. Fui segurança por 22 anos. Era um modo de ganhar
um dinheiro extra. Sempre achei que a melhor herança que se pode deixar
pra um filho é educação e estudo. Fiquei dez anos casado e nos desquitamos
para mais tarde nos divorciarmos e em seguida ela faleceu de complicações
no pulmão. Os meninos ficaram com ela. Depois de um tempo, preferiram vir
morar comigo, ela ainda estava viva. ['Quando eles se separaram eu tinha
8 anos, queria conhecer mais o meu pai', interrompe Tiago, de 25 anos, sentado
ao lado de Jonas.] Ainda na Lapa, o Flávio freqüentava muito a casa de uma
família vizinha que trabalhava com próteses dentárias. Ele era amigo de
um dos filhos, foi aí que começou a se interessar por odontologia. Eles
tinham um consultório em Santo Amaro e Flávio foi trabalhar com eles aos
13 anos. Quando ele passou no vestibular, foi uma barra. A lista de material
ficou em 6 mil reais. Era o preço de um carro zero.
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| Não faltava serviço no laboratório montado em casa |
Eu havia acabado de tirar um Gol do consórcio e vendi para pagar as despesas.
Como o curso era o dia todo não dava pra ele trabalhar. Aí ele montou um
laboratório aqui em casa e começou a fazer algumas próteses. Os dentistas
daqui gostavam do trabalho dele e chegou muito serviço. Depois mudou de
faculdade e conseguiu meia bolsa, a igreja dele também deu uma força. O
Flávio era mórmon. Nós somos da Congregação Cristã do Brasil. Mas o importante
é estar servindo a Deus. A namorada dele, Anita, também é mórmon, foi assim
que se conheceram. Ela é suíça e mora em Nova York. É consultora de moda
da revista Prada. Minha preocupação agora que ele estava pra se formar era
quem mudaria de país. Ele falava que não iria para os Estados Unidos. Ele
sabia que lá tem muito preconceito. Anita é uma pessoa maravilhosa. Cheguei
a perguntar pra ela se os pais dela sabiam que nossa família é toda de negros?
Ela me respondeu que quem iria viver com ele era ela, não os pais. Ela ficava
sempre hospedada aqui. E das próximas vezes que ela quiser também a gente
vai fazer questão. Ela veio para a formatura dele, dia 28. No dia 3 [fevereiro]
o vôo dela saía à meia-noite e meia, ele foi levá-la ao aeroporto e não
voltou mais. Eles saíram daqui 11h30. Ele sempre avisava tudo. No fim de
semana anterior eles foram ao Guarujá [litoral] e me ligou de lá. Eu sempre
sabia onde ele estava. E, desta vez, não. Sumiu. Depois que eles saíram,
eu adormeci tranqüilo. Na terça de manhã eu abri a porta do quarto dele,
olhei e notei alguma coisa errada. Perguntei em casa, ninguém sabia. Já
comecei a procurar. Primeiro desconfiei de algum acidente de carro. Fui
na Dutra, na Ayrton Senna [rodovias e levam ao aeroporto]. Pensei: ele bateu
o carro, está em algum lugar encostado. Ao mesmo tempo eu pensava em seqüestro.
Jamais eu ia pensar no que realmente aconteceu. Mesmo assim fomos nos hospitais
de Guarulhos [município onde fica o aeroporto] e à tarde eu já fui no Instituto
Médico Legal [IML]. Rodamos a noite toda. Na quarta-feira fui no IML central,
de São Paulo, e expliquei tudo. O rapaz que me atendeu estava todo nervoso
na hora. Me disse que lá só tinha um senhor idoso. Foi até bom ouvir aquilo...
Eles
[os policiais] têm
família também e eu não quero desejar pra eles o que
eu estou passando. De jeito nenhum. Eu quero que eles respondam
na Justiça dos homens e na de Deus |
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