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  A NOVA JUSTIÇA PAULISTA
São Paulo acaba de ganhar o advogado Hédio Silva Jr. como secretário da Justiça e Cidadania do Estado. Empossado pelo governador Geraldo Alckmin no mês de maio, o professor de processo penal e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB é o primeiro negro a ocupar esse cargo

CONCEIÇÃO LOURENÇO
FOTOS PAULO PEREIRA

A posse do novo secretário da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, o professor-doutor Hédio Silva Jr., de 43 anos, no último dia 16 de maio, deveria acontecer no auditório da própria secretaria, com capacidade para 100 pessoas. Na última hora, porém, o cerimonial foi transferido para o Palácio do Governo, pois os convidados já somavam mais de 800. Só ialorixás compareceram 40, de terreiros diversos e todos paramentados. Afinal, ainda quando presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, cargo também ocupado pela primeira vez por um negro, o doutor Hédio colocou em pauta a questão da intolerância contra as religiões de matrizes africanas - ação ganha recentemente. Também estiveram presentes dezenas de representantes de comunidades quilombolas do interior paulista - causa que o secretário empossado promete abraçar como marca de sua gestão.

Separado e pai de três filhos, Hédio nasceu em Três Corações, Minas Gerais. O mais velho de três irmãos, alfabetizou- se sozinho, aos 6 anos, lendo os pequenos livros de bangue-bangue do pai: "Achava fantástico. O justiceiro sempre era alto, forte, bonito e namorava todas as mulheres da cidade [risos]". Aluno exemplar, lembra ainda hoje com carinho do presente que ganhou do avô quando concluiu o curso primário. " Meu avô paterno [Geraldo] é uma figura que ainda me inspira muito. Era um negro muito elegante, analfabeto, foi meu grande incentivador. Eu tinha 10 anos, ele me deu um relógio de presente e disse que eu poderia ser qualquer coisa na vida", conta emocionado. A família logo mudou-se para São José dos Campos, interior de São Paulo, em busca de trabalho nas indústrias automobilísticas que se instalavam por lá. Aos 11 anos, o garoto Hédio começou a trabalhar. Foi servente de pedreiro, ajudante em banca de jornal, bar. Aos 12, leu a biografia de Martin Luther King, que foi um marco em sua vida, contribuindo para que desde cedo tivesse carconsciência da sua negritude.

Pode-se dizer que o secretário entrou para a política quando ingressou no Movimento Negro, aos 18 anos. A partir daí aderiu à militância de esquerda, que o levou para o movimento sindical. Em 1986, foi trabalhar no Conselho da Comunidade Negra em São Paulo (hoje vinculado à sua Pasta), no Grupo de Relações de Trabalho, chefiado por Cida Bento. Os dois criaram o Ceert (Centro de Estudos das Relações do Trabalho e da Desigualdade) e também se casaram.

Admirador dos ídolos marxistas africanos e de líderes que marcaram sua época, como Samora Mashell, Nelson Mandela e Martin Luther King, o doutor Hédio já foi consultor da Unesco e da Seppir, é professor de processo penal da Universidade Metodista (SP) e coleciona vitórias significativas: conseguiu aprovação para que possamos registrar nossos filhos com nomes africanos e o reconhecimento do casamento religioso, exigiu a apuração da chacina dos moradores de rua de São Paulo, defendeu os atores do filme Cidade de Deus, quando foram acusados de roubo em um supermercado da capital paulista. Com muito trabalho pela frente, o secretário lamenta ter de abandonar seus alunos e de não poder mais atuar como acusação no caso de Flávio Santana, o dentista assassinado pela polícia em 3 de fevereiro de 2003. Do tipo que trabalha até em feriado, ele concedeu a seguinte entrevista à reportagem de Raça Brasil.

"O FATO DE SER DOUTOR EM DIREITO NÃO ME LEVARIA A ESTE CARGO. O QUE ME FAZ OCUPÁ-LO É A LUTA COLETIVA DA POPULAÇÃO NEGRA POR ESSE ESPAÇO"

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