entrevista
Qual é... Campeão em vendagem de discos, o polêmico Marcelo D2aposta na carreirainternacional, curte a vida de pai, e lança uma grife de roupas para rappers
SANDRA ALMADA FOTOS: PEDRO GARRIDO

Carioca da periferia, menino pobre que trabalhou como camelô e porteiro,
Marcelo D2, 37 anos, inscreveu na alma e no corpo as marcas da cultura
underground vivida intensamente nos subúrbios do Rio de Janeiro. Ousado
e irreverente, o rapper manteve-se fiel às suas fortes raízes culturais
negras e assina uma das mais criativas misturas do caldeirão multicultural
brasileiro. "Quem é que mistura rap com samba, quem é?", pergunta ele,
demonstrando seu lado desafiador e provocativo. A resposta todos já sabem.
É o polêmico e talentoso Marcelo D2, que, das celas da prisão como líder
do Planet Hemp, nos anos 90, ganha sucesso nacional e internacional de
público e crítica. Nesta entrevista concedida à equipe da revista Raça
Brasil, ele fala de suas crenças, posições políticas, de hip hop,
negritude, drogas, sobre a educação que dá a seus filhos e da nova carreira
como empresário do mundo da moda. Criou a Manifesto 33 e 1/3, marca de
roupa que imita seu jeito de vestir. O papo todo é atravessado por comentários
sobre letras de suas músicas. Afinal, é pela obra que se chega à alma
dos grandes artistas. E Marcelo D2, cheio de prêmios no currículo e 650
mil discos vendidos, mostra que é definitivamente um star.
Raça
Brasil - O jornal francês Le Monde considera sua música o acontecimento
mais importante no cenário brasileiro, depois do tropicalismo. Como o
menino pobre conseguiu voar tão alto?
Marcelo D2 - Não tenho amigos de infância porque todos já morreram
ou estão presos. Há uma estatística que revela que jovens da periferia
não passam dos 25 anos. Desafiar as estatísticas tem a ver com nadar contra
a corrente e chegar lá. Não adianta você achar que é inteligente se não
enxergar que o que vale a pena é ter o amor da família, dos amigos e continuar
vivendo.
Raça - Já esteve ou viveu em situações de risco?
D2 - Fui criado no Andaraí, uma favela que, na época, era uma
das mais violentas do Rio. E não tem um moleque que tenha crescido ali
sem passar por situações de risco.
Raça - Como foi sua infância?
D2 - Comecei a trabalhar com 13 anos entregando jornal. Depois,
fiz de tudo: fui porteiro de prédio, vendedor de loja de móveis, camelô,
consertei telhado, montei divisória. Até os 20 anos não sabia o que ia
fazer da vida. A música me salvou, literalmente.
"PARA
OS BRANCOS EU SOU PRETO E PARA OS PRETOS EU SOU BRANCO" |
Raça - Que tipo de atitude é preciso ter no Brasil?
D2 - A palavra atitude já diz tudo. É se movimentar. As pessoas
esquecem de viver, viram robôs. Essa frase eu escrevi pensando muito na
eleição do Lula. É a primeira vez, depois de 500 anos, que o Brasil tem
um cara destes no governo. Se é que ele está realmente no controle das
coisas. Mas, pelo menos, tem um representante do povo lá em cima. O cara
é um nordestino que veio para São Paulo, foi metalúrgico. Afinal, "abaixou
a cabeça, já era!" A gente tem que encher o peito de orgulho. Orgulho
não faz mal, não! Tem que dizer: "eu sou capaz, eu posso". "Quero ser
médico, vou ser médico. Quero ser músico, vou ser músico. Eu consigo".
E o presidente Lula é um bom exemplo disso.
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