NOSSA HISTORIA, ENFIM, CONTADA Documentos, fotos e obras de arte expostos no Museu Afro-Brasil, em São Paulo, evidenciam o negro como integrante ativo na construção da nação brasileira
ADRIANA REIS FOTOS: CÍNTIA SANCHEZ
 |
| Peças trazidas da África retratam a cultura do continente. |
Apague tudo o que você conhece sobre a História do Brasil. Ou quase tudo,
já que a versão ensinada na escola sobre a formação da nação brasileira,
em geral, desconsidera a participação ativa dos negros na construção do
País.
Na literatura que se conhece sobre a colonização do Brasil pelos portugueses,
o índio é visto como um ser que aceita pacificamente a imposição da cultura
e da religião européias e que não se adequa ao esquema de trabalho imposto.
O negro, no entanto, é tido ora como passível de pena, por aceitar sua
condição de escravo, ora como rebelde fujão, que constrói os quilombos
e sofre as conseqüentes punições. Mas quase nunca é mencionado que negros
e índios fizeram parte da vida social do País desde a sua formação. "Foram
os negros que extraíram o ouro na mineração, cultivaram a cana-de-açúcar
e o café, cuidaram do gado e do fumo", lembra Emanoel Araújo, 63 anos,
diretor e criador do Museu Afro-Brasil, em São Paulo.
É justamente para recontar a nossa história com um novo olhar - ela não
foi escrita com "inteireza", diz o curador - que este museu foi criado,
em outubro de 2004, no Parque do Ibirapuera. Um sonho que Emanoel acalentou
a vida toda e conseguiu realizar com o patrocínio da Petrobras. Cerca
de 80% do acervo ele reuniu durante sua trajetória no universo das artes
e doou para o museu. O restante veio de colecionadores interessados em
colaborar e artistas que têm suas obras expostas nesse espaço de 11 mil
metros quadrados.
11
mil pessoas
por mês visitam o local, que tem entrada gratuita |
Divididas entre os dois andares do prédio, estão expostas cerca de duas
mil peças que compõem o acervo permanente. Entre elas, pinturas, documentos,
esculturas, máscaras e fotos, que ilustram as raízes africanas, a vinda
dos negros para cá e a participação na vida cotidiana nestes cinco séculos
de Brasil. O local também dispõe de uma biblioteca e de um auditório para
150 pessoas. Acompanhe a seguir o roteiro que a reportagem de Raça Brasil
percorreu nesse mergulho no tempo e descubra o real significado da expressão
"brava gente brasileira".
 |
| Esculturas de madeira representam divindades africanas |
Núcleo África
Este é o ponto de partida do nosso passeio. Ao subir a rampa que leva
ao segundo andar do prédio, onde está o acervo permanente, o visitante
é recepcionado por uma tela que exibe um texto introdutório, escrito por
Emanoel Araújo, contextualizando a exposição. Os objetivos deste trabalho
estão lá: "Registrar, preservar e argumentar, a partir do olhar e da experiência
do negro, a formação da identidade brasileira...". Em seguida, iniciamos
a caminhada em busca de nossas raízes. A primeira parada é uma coleção
de máscaras vindas do continente africano, cuja vedete é a Cabeça
Nok, artesanato confeccionado pelo povo Nok, que viveu entre 500
a.C. e 500 d.C., e a peça mais antiga do museu. O Núcleo África ainda
dedica um espaço para as mulheres, por meio de poemas e esculturas que
representam divindades femininas.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >> |