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PERFIL
  Léa Garcia a mais querida
Estrela do primeiro filme brasileiro a concorrer ao Oscar e à Palma de Ouro, em Cannes, coadjuvante de luxo em inúmeras novelas e peças de teatro, a atriz é reverenciada pelo público e colegas

POR SANDRA ALMADA
FOTO: IVONE PEREZ

Cena 1: Rio de Janeiro, 1958. A atriz carioca Léa Garcia, de 20 anos, desembarca do avião que a trouxe da França e tranca-se em casa por 15 dias para esquivar- se da empresa, dos amigos e dos fãs. Segunda colocada no Festival de Cinema de Cannes pela atuação no filme Orfeu do Carnaval, tudo o que ela queria era curtir aquele momento a sós. Afinal, naquela época, não era todo dia que uma atriz brasileira conquistava projeção internacional. Léa perdeu a Palma de Ouro para Simone Signoret, o nome mais aclamado da França nos anos 50. "Me assustei com tudo aquilo", conta Léa. "De repente, me vi frente a frente com Anna Magnani [atriz italiana], minha preferida."

Cena 2: Gramado, 2004. A platéia do Festival de Cinema realizado nessa cidade do Sul do Brasil, aplaude calorosamente Léa Garcia, premiada com o Kikito de Melhor Atriz pela atuação em Filhas do Vento, dirigido por Joel Zito Araújo. "Se o júri e a crítica do festival assim decidiram, devo ter merecido", diz a mesma atriz, algumas décadas depois, com o despreendimento que a caracteriza. "Acho o prêmio com um valor simbólico grande para nós, negros. Vem resgatar a nossa auto-estima e a consciência de nossa problemática na sociedade. Porém, me emociono mais com o ser humano do que com o Kikito. Durante as gravações em Lavras Novas [distrito de Ouro Preto], conversei muito com os moradores, uma gente maravilhosa. Me metia no mato, escutava as lendas e as histórias sobre os quilombos daquela região, passei horas com as rezadeiras. Sempre que tenho uma oportunidade, desenvolvo meu trabalho assim."

Aplausos unânimes
Léa Garcia, a protagonista dos fatos narrados aqui, conversou com a repórter de Raça no camarim do teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, enquanto maquiava-se para subir ao palco na pele da governanta Addie na peça Pequenas Raposas. Addie começa a surgir no camarim e Léa continua a entrevista. "Visito o cenário todos os dias antes de subir ao palco. E agradeço a Deus, ao grande mistério, a todos que fizeram com que este trabalho chegasse às minhas mãos", diz, caracterizando-se para voltar ao ano de 1900, período em que se desenvolve a trama. Sentada ao lado de Léa, a atriz Beatriz Segall - a protagonista da peça - elogia a companheira de trabalho: "É uma grande atriz, uma ótima colega. Mas nela a modéstia é tanta que quase chega a constituir-se em um defeito". Léa sorri e confessa que, além dos aplausos do público, outro elogio deixou-a muito feliz. Foi o de Joana Fomm que, em entrevista no programa do Jô Soares, ao citar o elenco de Pequenas Raposas, referiu-se à "deusa Léa Garcia".

"Há quanto tempo não sou chamada assim", avisa Léa, talvez sem ter muita consciência dos elogios que recebe das antigas e novas gerações de artistas. "Sei que, entre as novas atrizes negras, algumas sabem que os artistas do meu tempo abriram caminhos, mas não são todas que têm esta consciência. Essas meninas têm tempo suficiente para desenvolver suas carreiras, conquistando espaço, umas com mais, outras com menos talento. Entre os jovens tenho meus prediletos, e eles sabem quais são. Não citaria nominalmente nenhum deles aqui", afirma, cuidadosa, do alto de mais de 50 anos de carreira, na qual se incluem dezenas de telenovelas, filmes, peças, minisséries.

Três momentos: Serafina, em Orfeu do Carnaval; a malvada Rosa, em Escrava Isaura; e a sofrida Selma, em Suave Veneno

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