AS FILHAS DO VENTO Aclamada, a equipe negra deste filme conquista oito Kikitos, no Festival de Gramado, e a crítica norte-americana. Mas provoca polêmica e os vencedores ameaçaram devolver os prêmios recebidos
POR SANDRA ALMADA FOTOS: DIVULGAÇÃO
"Não
podemos suportar uma declaração indigna e inconseqüente como esta.
Ele [Rubens Edwald Filho] se desculpou. Temos que exercitar
a prática do perdão "
MARIA CEIÇA |
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| Três gerações: Ruth, Maria Ceiça (à esq.) e Daniela.
Abaixo Milton Gonçalves |
Sonho realizado
"Acho que não há nada de parecido no cinema nacional. Um elenco todo negro,
com um diretor negro contando uma história universal, de drama, amor e
redenção que se passa numa família negra comum", emenda Maria Ceiça. Outra
que não contém a emoção é Ruth de Souza. "Fico feliz de ver meu sonho
realizado", completa Ruth, ganhadora, com Léa Garcia, do prêmio de melhor
atriz do Festival de Gramado. "Foi uma conquista e isso é que vale", opina
Léa Garcia. Na quarta noite do Festival de Gramado, quando Filhas
do Vento começou a ser exibido, já se previa que a equipe do filme
levaria prêmios para casa.
No dia seguinte à premiação, entretanto, Rubens Edwald, crítico de cinema
e presidente do júri de Gramado, daria uma declaração desastrosa ao Jornal
do Brasil: "Foi uma premiação totalmente planejada e nem assim eles
reconhecem. Não houve concessões, claro. Mas o prêmio foi planejado por
nós. Ou alguém acha que foi à-toa que demos prêmios para seis atores negros
em um Estado como o Rio Grande do Sul, que sempre foi acusado de desprestigiar
o negro. Eles agradecem a todos e não se lembram de nós". Joel Zito comenta
emocionado: "No dia seguinte Milton Gonçalves falou algo que depois foi
endossado pela Léa, que me alertaram: 'Não fique assim [tão feliz],
não. Eles não nos deixam quietos'. E não é que veio a revanche que os
mais velhos e experientes esperavam!", conta Joel.
Polêmica
e frustração
"Eu estou muito sentido com esta história toda", diz Milton Gonçalves,
e continua: "Eu significo neste país a metade da população, e, no momento
em que se conta uma parcela da realidade do meu país, vem um jornalista
e diz que o prêmio é planejado. Será que nós, os negros, deveríamos colocar
aos pés dele as correntes de 1888?", rebate o ator. "Não podemos suportar
uma declaração indigna e inconseqüente como esta", diz Maria Ceiça. "Mas
ele [Rubens Edwald] se retratou, reconhecendo que errou. Temos
que exercitar a prática do perdão", acrescenta a atriz. Polêmica acalmada,
resta agora torcer para que a obra-prima consiga vencer a concorrência
dos filmes estrangeiros e chegue logo às salas de exibição dos cinemas
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