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  CLÁSSICO DA JUVENTUDE
Crianças e jovens da Orquestra de Cordas da Grota do Surucucu, Niterói, estão construindo um novo futuro por meio da arte. Tudo graças a um homem que acreditou ser possível trilhar um caminho melhor

POR AIMÉE LOUCHARD
FOTOS: IVONE PEREZ

A Orquestra de Cordas da Grota do Surucucu ensina o ritmo clássico a 80 jovens de um bairro pobre
O clima é de euforia. A barulhenta leva de meninos e meninas carregando seus estojos de instrumentos a caminho do ensaio não causa mais estranheza na tarde chuvosa da favela. Há dez anos, os moradores da Grota do Surucucu - comunidade das mais pobres da periferia de Niterói, cidade vizinha do Rio de Janeiro - estão aprendendo a deliciar seus ouvidos e corações com música erudita da melhor estirpe.

Pelo menos duas tardes por semana nos becos e vielas de barro batido ecoam acordes de Haendel, Bach, Schubert, Vivaldi, Mozart. Todos, com certeza, mais bem-vindos que os costumeiros tiroteios das vizinhanças.

Novo rumo
Hoje, 80 crianças e jovens da favela - com idades entre 10 e 19 anos - estudam violino, viola, violoncelo ou flauta. Destes, 12 integram o elenco estável que tem uma razoável agenda de concertos para uma orquestra amadora. Todos estão convictos de que, assim como as cobras surucucus foram embora do terreno quando surgiram as primeiras casas, eles também podem driblar a violência e a pobreza e construir um novo futuro por meio da música. O mentor desta história de superação que o diga! Jonas Caldas, um fluminense nascido em Teresópolis, filho de doméstica, tinha tudo para se tornar um excluído. Dos 6 aos 18 anos viveu no internato da antiga Funabem. Aos 15 anos, graças a um convênio firmado com a Funarte, matriculou-se no curso de lutheria, "sem nem saber muito do que se tratava", confidencia hoje, aos 41 anos.

"Fui um garoto de muita sorte. Normalmente quem sai de um lugar destes sem ofício cai para o lado ruim da vida. Eu saí com uma profissão e ainda consegui vaga na oficina de um mestre luthier conceituado", conta.

"Fui um garoto de muita sorte. Normalmente quem sai de um lugar destes sem ofício cai para o lado ruim da vida. Eu saí com uma profissão e ainda consegui vaga na oficina de um luthier conceituado. Só é possível descobrir um dom dando oportunidade "
JONAS CALDAS

Sorte na vida
Com bastante esforço, ele conseguiu montar uma pequena oficina para trabalhar por conta própria. Num golpe de sorte fez uma viola da gamba - instrumento para música barroca -, que, pelas mãos de um brasileiro, chegou na Alemanha. O resultado foi o convite para um estágio de aperfeiçoamento em Stuttgart. De volta ao Brasil, em 1994, seduzido pela música, decidiu batalhar a fim de melhorar a vida de meninos pobres como ele. "Só é possível descobrir um dom dando oportunidade", acredita Caldas, que não disfarça o orgulho ao falar dos seus garotos, os da orquestra e os quatro filhos - três dos quais herdaram sua paixão e já se encaminham para a profissionalização.

Felipe Caldas, o caçula, de 17 anos, confessa que começou a tocar violino há quatro, quase obrigado pela mãe, dona Romélia. Com poucos meses, a antipatia pelo erudito se reverteu. "A música já me levou a lugares que eu só conhecia pelo mapa da escola", entusiasma-se.

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