O HAITI QUER RENASCER A primeira nação das Américas a abolir a escravidão clama por ajuda. Mais de 80% do povo vive abaixo da linha da pobreza. A convite da ONU, nossos soldados estão lá para ajudar a população a encontrar algo há muito perdido: a paz
POR OSWALDO FAUSTINO
A
miséria corrói o Haiti de ponta a ponta. A foto desta página mostra um
flagrante das ruas de Porto Príncipe, a capital. Se essa é uma cena comum
na cidade que, teoricamente, deveria ser o centro financeiro do país,
como é a situação nas outras localidades mais distantes? Os dois milhões
de habitantes de Porto Príncipe vivem cercados por lixo. O órgão que deveria
removê-lo faliu faz tempo. Água potável é artigo de luxomiséria corrói
o Haiti de ponta a ponta. A foto desta página mostra um flagrante das
ruas de Porto Príncipe, a capital. Se essa é uma cena comum na cidade
que, teoricamente, deveria ser o centro financeiro do país, como é a situação
nas outras localidades mais distantes? Os dois milhões de habitantes de
Porto Príncipe vivem cercados por lixo. O órgão que deveria removê-lo
faliu faz tempo. Água potável é artigo de luxo por ali. Quem não pode
pagar para têla, lava a comida, o corpo, a roupa... no esgoto que corre
a céu aberto. E os especialistas da política internacional observam que
a situação deve piorar muito mais por lá. E pensar que tudo poderia ser
diferente...
Ao avistar as caravelas de Cristóvão Colombo invadindo o golfo da ilha
de Quisqueya, naquela manhã de dezembro de 1492, os índios aruaques e
caraíbas não imaginavam que ali surgiria a primeira nação americana a
conquistar a independência e a pôr fim à escravidão. Menos ainda que,
depois disso, teriam uma história trágica marcada por miséria, guerras
civis, furacões e doenças (entre elas a aids).
Nação de desempregados
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| Desde o ano passado, uma tropa de 1.400 soldados brasileiros atua
no país em nome da paz e da ordem |
Para homenagear os reis da Espanha, que financiaram a viagem que o levou
a descobrir a América, Colombo chamou de Ilha Hispaniola aquela região
do planeta. Depois foi rebatizada de São Domingos. Hoje, considerada a
segunda maior ilha das Grandes Antilhas (com 96% da população de negros),
abriga dois países: a República Dominicana, em dois terços de suas terras,
e o Haiti, no terço restante.
Visto no mapa, o Haiti tem a forma da cabeça de um caimão - um pequeno
crocodilo comum na região -, com a boca aberta. O norte do país é banhado
pelo Oceano Atlântico (ver mapa); o sul, pelo Mar do Caribe, e o oeste,
pela Passagem de Sotavento. A leste, faz fronteira com a República Dominicana.
As principais cidades são Carrefour, Delmas e Cap-Haïtien.
Embora
seja o francês a língua oficial, só é falado por 20% da população. A maioria
se expressa com o creole, mistura de francês antigo, espanhol, inglês
e dialetos africanos. Quase 70% dos haitianos estão desempregados. A renda
per capita do país é de 400 codólares, algo em torno de 1.100 reais. Adultos
alfabetizados não passam de 45%. Quanto à religião, 80% se declaram católicos
e 16%, protestantes - no entanto, mais da metade dos haitianos também
pratica o vodu, crença inspirada em rituais africanos.
A rebelião dos escravos
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| Bonifácio Alexandre, o atual presidente. Jean-Bertrand Aristide
(abaixo), o último presidente deposto |
Por que o francês é o idioma oficial do Haiti? A explicação é simples:
em 1697, a Espanha entregou aos vizinhos europeus a parte oeste da ilha
de São Domingos, onde está o país. Não demorou muito tempo para a França
tornar as recém-adquiridas terras na mais próspera colônia da América.
Ali produzia e exportava café, cacau, algodão e açúcar.
Na passagem dos séculos 18 para 19, mais de meio milhão de escravos negros
labutam nas plantações e engenhos de São Domingo sob o domínio de apenas
30 mil brancos e mestiços.
Até que, em 1789, na França, os miseráveis uniram-se e fizeram a Revolução
Francesa. A revolta na França influenciou a história do Haiti. Logo, o
país foi palco da maior rebelião negra da história e os escravos tornam-se
os primeiros a conquistar a liberdade, nas Américas. Dois anos depois,
Toussaint Bréda, um ex-escravo que depois passou a se chamar Toussaint
L'Ouverture,torna-se governador geral. Mas os franceses logo interrompem
os sonhos revolucionários haitianos. Derrubam o governador e o deportam
para Paris, onde foi morto nos calabouços de Napoleão. E prendem os outros
líderes.
Assim que reconquistaram a liberdade, os revolucionários voltaram à ativa.
E tornaram-se cruéis como seus feitores: invadiram casas, massacraram
famílias inteiras de fazendeiros e envenenaram a água para exterminar
pessoas e animais. Como resposta, as tropas formadas por franceses e espanhóis
queimaram vivos muitos rebelados. Para vingá-los, os revolucionários enforcaram
centenas de soldados e civis. O sangue jorrou durante anos nos confrontos
dos negros contra franceses e espanhóis. Até que, em 31 de dezembro de
1803, os haitianos comemoram grande vitória. Sob a proteção da Inglaterra,
Jacques Dessalines declara a independência do país, o rebatiza com o nome
indígena de Haiti (que significa "terra da montanha") e se proclama imperador.
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