O FUTURO ESTÁ NA ESCOLA Dos jovens, entre 12 a 17 anos, que abandonam os estudos, 72 % são negros. Veja como educadores, governo, ONGs e as famílias podem reverter esse quadro de números alarmantes
POR FRANCISCA RODRIGUES
Em pleno século 21 ainda existem mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros,
de 12 a 17 anos, que não sabem ler e escrever. Dados recentes mais preocupantes
foram revelados na Pesquisa Juventudes da Unesco, agência da ONU (Organização
das Nações Unidas) especializada em Educação, que ouviu mais de dez mil
jovens nos 26 Estados do País, em capitais e interior. De acordo com o
órgão, 17% dos nossos jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola e,
portanto, não irão completar o ensino médio que, há mais de uma década,
vem sendo exigido como prérequisito para qualquer emprego. E mais da metade
desse contingente é composta por mulheres. Pior ainda: 72% dos jovens
que não estudam declaram-se pardos ou negros.
Embora a maioria seja pobre, a falta de dinheiro não é a única responsável
pelo abandono escolar entre os jovens negros. A pesquisa da Unesco relaciona
outras causas. Entre elas, dificuldade em aprender (embora não exista
diferença intelectual entre brancos e negros), ausência de reforço escolar;
reprovação; falta de vagas e de interesse pelos estudos. No caso das meninas,
a gravidez não planejada está em primeiro lugar da lista (veja box na
outra página) do êxodo.
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As aulas eram um tédio, não me estimulavam a voltar à escola
no outro dia, não me sentia motivado. Comecei a faltar muito
e acabei perdendo a vaga por excesso de faltas. Hoje me arrependo.
Faço supletivo para ver se consigo recuperar o tempo perdido
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FLÁVIO
ANTÔNIO VIEIRA CIRINO, 18 ANOS |
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Racismo explícito
Mary Garcia Castro, professora da Universidade Católica de Salvador e
pesquisadora da Unesco, vê a injustiça social como a grande culpada do
problema: "Há um preconceito que se traduz em baixa auto-estima, o aluno
não se vê representado nos livros, há uma certa resistência por parte
dos professores ao novo e um exemplo disso é que o estudo da contribuição
das raças ainda está no papel", relata a especialista.
Outros estudos da Unesco mostram que ambientes escolares hostis contribuem
para a baixa auto-estima dos jovens, em particular dos negros, que são
vítimas de apelidos racistas, muitas vezes justificados como "brincadeiras"
- mas que doem e colaboram para que se deixe a escola.
Segundo Mary Castro, não faltam casos de racismo explícito e, principalmente,
de racismo institucional "cordial", camuflado e banalizado. Exemplos?
A preferência de professores por alunos brancos na sala de aula; a não
consideração de que é preciso investir em uma educação que valorize a
contribuição econômica, política e cultural do povo negro na História
do Brasil.
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