Atualidades << Home
Envie para um amigo Imprimir
ESPECIAL QUILOMBOS
  O PURO DENDÊ DA BAHIA
Nas terras férteis de Caonge, no Recôncavo Baiano, tudo que se planta dá. Além do azeite, a comunidade vive da pesca e do cultivo de mariscos

POR CONCEIÇÃO LOURENÇO
FOTOS: PAULO PEREIRA

São dez comunidades - Caonge, Tombo, Calembar, Bendê, Caimbongo, Engenho da Ponte, Engenho da Praia, Engenho da Vitória, Imbiaia e Calolé - próximas umas às outras e que vivem em paz nas redondezas da cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, aproximadamente a 200 quilômetros de Salvador, na Bahia. A região é considerada mística pela grande concentração de terreiros de candomblé e atrai devotos de várias localidades para trabalhos religiosos. As comunidades são centenárias e estão assentadas naquele pedaço de terra antes da Abolição da Escravatura.

""Se eu sair daqui vou fazer o quê? Não tenho idade para começar uma nova vida. O que eu vou fazer? Ser empregada doméstica? Roubar? "
SENHORA, DE 65 ANOS, DA COMUNIDADE DE CALEMBAR

Como convém a um quilombo de negros fugitivos, que não querem ser achados, o lugar é de difícil acesso. Para chegar lá, saindo da capital baiana pela BR 101, logo após a cidade de Santo Amaro da Purificação, pegase uma estrada de terra batida (10 quilômetros), entre canaviais. Só quem for grande conhecedor da região é capaz de acertar o caminho escondido, que vai dar em Caonge. Com o fim do ciclo do açúcar, alguns proprietários abandonaram as fazendas. Em Calembar, por exemplo, ruínas do engenho estão presentes em algumas casas, construídas aproveitando parte da parede sólida de tijolo da fazenda.

Plantação de cana-de-açúcar

A antiga tradição de acordar às 3 da manhã, colher o dendê (fruta vermelha que dá em cacho no dendezeiro, espécie de coqueiro), debulhar, moer e processar, até obter o azeite, acabou quando os posseiros chegaram trazendo uma solução mais rentável: em vez de trabalhar com o dendê nativo, plantálo. Era o início do chamado dendê tenege. Alguns alqueires foram reflorestados, mas o lucro com a venda do azeite (feita na cidade) já não pertencia totalmente aos quilombolas. Tudo começou a ser dividido. Nos recentes anos 80, o governo federal (José Sarney) deu início a incentivos para o programa do álcool e a cana-de-açúcar voltou a ser a menina dos olhos dos posseiros. Uma usina foi construída bem próximo dali. O sossego acabou de vez. Máquinas, diariamente, começaram a invadir as comunidades para o plantio da cana. Sem pedir autorização. As invasões foram aumentando e as terras quilombolas, diminuindo.

Um dos maiores abusos aconteceu no ano passado: "Um cemitério foi arrancado com as pessoas ainda em carne. Ali estavam enterradas minha mãe, minha vó...", conta, horrorizada, uma moradora. "Agora, para enterrar nossos mortos, a gente pega a caixa, põe no barco e vai até o Cemitério da Cruz. É muito longe, eu não vou em enterro nenhum. É muita canseira", desabafa.

A ganância faz com que os posseiros não parem. As terras são muito férteis. "O que a pessoa plantar e não der por aqui, não dá em lugar nenhum", diz, orgulhoso, Ananias, o porta-voz das comunidades, que não gosta de ser chamado de líder e, sim, de orientador. Ananias, de 41 anos, alto e magro, com porte e elegância de um príncipe, nasceu em Caonge, em uma família de seis irmãos.

Ao alto, Ananias, descansando. O porta-voz faz a ponte entre as comunidades e a cidade. Acima, as donas de casa aproveitam a água e os dias de sol para lavar as roupas. Ao lado, o dendê, puro, ainda no cacho

PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>
Movimento :: ed 136 - 2009
Beleza rara
Reportagem :: ed 137 - 2009
Negros do Mundo
Perfil :: ed 137 - 2009
Jéssica Barbosa

Notícias :: 24/11/09
Livro traz trajetória de cantoras negras 'não-sambistas'
Agenda :: 12/11/09
Santa Maria comemora Consciência Negra
Agenda :: 12/11/09
Mês da Consciência Negra

 
Quero Assinar
Comprar esta edição
Ver Edições Anteriores
 













BUSCAR!

 
Assine Atrevidinha
 

No passo do frevo
Seria o frevo o jazz brasileiro ou o jazz o frevo norte-americano? Quem sabe?

 
Prontos para o altar
Os noivos são naturalmente o centro das atenções e não precisam de muito para arrancar elogios


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS