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Curtas
  Um cruzado no século 21
Como um guerreiro do tempo das Cruzadas, um afrocostarriquenho vestiu-se com a armadura da fé na justiça divina para enfrentar os poderosos que enriqueceram à custa de uma canção religiosa, segundo ele, "roubada" pelo mercado pop

Por Oswaldo Faustino
FOTOS DIVULGAÇÃO

De tempos em tempos, surge um nome na vida das pessoas com a finalidade de surpreendê-las. Recentemente, "aterrissou" na minha, via redes sociais, o afro-costarriquenho de San Jose, Isaias Gamboa. Acredito que não se trata de um desconhecido para quem lê as contracapas dos álbuns de música popular internacional. De ascendência africana e espanhola, constam em seu currículo mais de 30 anos dedicados ao mercado fonográfico, com passagens por gravadoras como a Arista e a Polydor, entre outras. Quem acompanha o Grammy relaciona esse nome com trabalhos de produção musical, composição, arranjo ou como engenheiro de som, ligado a artistas como os Temptations, Janet Jackson, Tupac, Gladys Knight, Wade e outros mais. Há seis anos, durante uma viagem ao Brasil, Isaias conheceu a baiana Janaína, com quem se casou no centro-sul de Los Angeles, na Califórnia, em 2008. Dessa união, há três anos, nasceu Gabriel.

O que realmente chama atenção nesse "seguidor de Jesus Cristo" - como ele se intitula -, cuja família vive na Califórnia desde 1960, é o seu empenho numa cruzada: em julho último, ele lançou seu primeiro livro-denúncia, We Shall Overcome: Sacred Song on the Devil's Ton (que pode ser traduzido como: We Shall Overcome: A música sacra na língua do diabo), ainda não publicado no Brasil. Vale lembrar que We Shall Overcome marcou a luta pelos Direitos Civis dos afro-americanos dos anos 60 e a Biblioteca do Congresso Nacional Americano a reconheceu como "a Canção Mais Poderosa do Século 20". Foi popularizada por figuras emblemáticas como Joan Baez, Bob Dylan, Bruce Springsteen, entre outros. De lá para cá, inúmeras manifestações nos EUA ou em outros pontos do mundo tiveram essa mesma trilha sonora, gravada e regravada por vários artistas, o que rendeu uma boa soma em direitos autorais para quatro caucasianos que a registraram: Zilphia Horton, Guy Carawan, Frank Hamilton e Pete Seeger, e para seus herdeiros, além da organização TOR, que detém 50% dos direitos dessa canção.

Porém, o livro de Isaias Ganboa revela que se trata de um plágio do gospel If My Jesus Will, de autoria de Louise Shropshire, uma devota negra, amiga do líder Martin Luther King Jr. e dos reverendos Fred Shuttlesworth e  omas A. Dorsey, ícones do Movimento de Direitos Civis. O próprio King, em seu último sermão, antes de ser assassinado, em Memphis, no domingo 31 de março de 1968, citou versos de We Shall Overcome que foi cantada pelos 50 mil que acompanharam seu sepultamento. Louise, que escreveu seu gospel em 1942 e o registrou em 1954, morreu pobre e sem reconhecimento. We Shall Overcome foi registrada em nome dos quatro citados acima, em 1960.

O livro de Gamboa é ilustrado com mais de 160 fotografias e traz uma análise tanto da apropriação indébita da canção quanto de outros relatos da luta pelos Direitos Civis dos afro-americanos. Se depender dele, os herdeiros de Louise Shropshire ainda se tornarão milionários, pois as longas pesquisas desse músico, que também é proprietário de uma imobiliária, além do livro-denúncia, deram origem à Fundação We Shall Overcome, com propostas de ações humanitárias nos EUA e na América Latina. Assim como ocorreu com o nosso samba, vemos que lá na terra do Tio Sam as coisas não foram muito diferentes. O próprio Pete Seeger teria admitido numa entrevista que era comum, naquela época, frequentar igrejas dos negros à cata de canções religiosas para serem "popularizadas". Ficamos aqui na torcida para que a cruzada de Gamboa tenha sucesso.

Será mais uma vitória dos descendentes de africanos, espalhados pelo mundo pela diáspora, sobre aqueles que enriqueceram à custa do sofrimento de nossos ancestrais.

Thomas A. Dorsey, Louise Shropshire, Martin Luther King Jr., e Fred Shuttlesworth

UMA COMPARAÇÃO ENTRE AS DUAS LETRAS

IF MY JESUS WILL:
I'll Overcome
I'll Overcome
I'll overcome some day
If My Jesus wills
I do Believe
I Will Overcome Some day

WE SHALL OVERCOME
We shall overcome
We shall overcome
We shall overcome someday
Oh, Deep in my heart,
I do believe
We shall overcome some day

 

 
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