Rocinha Ano novo chega repleto de esperança na maior favela da América Latina, mas ainda com muitas interrogações
Por Claudia Canto
Nas terras férteis do Rio de Janeiro, em meados da década 30 – época em que a cidade borbulhava de novidades e orgulhava-se de ostentar o título de capital federal, nascia, sem que ninguém escutasse seus ruídos, uma ‘menina’ descabelada, que cresceu meio rebelde, cheia de curvas sinuosas, com um gingado tão gracioso que causava inveja às outras ‘garotas’ da redondeza. Seu nome? Rocinha. Faceira, atraía olhares por onde passava, chamando a atenção de todos devido a sua alegria de viver. Com o passar dos anos, as curvas foram ganhando formas cada vez mais avantajadas. O destino lhe deu muitos lhos... Sozinha e sem a presença de uma mão forte para ajudá-la, não viu alternativa a não ser deixá-los crescer por conta própria, cada um a sua maneira.
Eram 23h30 do dia 31 de dezembro de 2011, quando adentramos a favela da Rocinha. Uma chuva fina insistia em cair e, misturada com o esgoto a céu aberto, transformava-se em minicachoeiras de cor cinzenta e odor fétido. Em clima de tranquilidade – sem a presença do tráfico nas ruas –, a população preparava-se para a chegada do ano-novo.
Na Via Ápia, um dos principais pontos de comércio da comunidade, havia uma estrutura preparada com caixas de som tocando o ritmo dos morros, o funk, porém, poucas pessoas estavam presentes devido à chuva. Nas vielas e nos becos escuros, o clima era amistoso, mas os olhares ainda refl etiam desconfiança. Caminhando por eles à procura de um determinado número, não sabíamos que o que tínhamos em mãos não significava muita coisa por lá. À nossa frente, centenas de casas, uma ao lado da outra, separadas, muitas vezes, apenas por uma porta. Com o tempo descobrimos que a Rocinha se divide em subbairros como um grande labirinto com dezenas de residências, mas apenas um único número.
Nem o mais hábil engenheiro conseguiria projetar um conjunto de casas com tal arquitetura. Dezenas delas espremidas em um beco minúsculo, sem infraestrutura e saneamento básico. Uma desordem ordenada como se diz no local. Nossa caminhada continuou e, à medida que avançávamos, dezenas de pessoas nos olha curiosidade, apreensão e certa desconfiança, reações que julgamos normais devido aos vários anos em que a comunidade ficou sob o domínio do tráfico de drogas. E foi nesse clima que vimos nascer o ano de 2012 na maior favela da América Latina. Enquanto os fogos de artifício de Copacabana competiam com os da Lagoa, entre os dois bairros nobres do Rio de Janeiro, o gigante adormecido não sabia se acordava ou continuava dormindo. Só depois de algum tempo, conseguimos adentrar na famosa laje de Denise do Espírito Santo, uma importante e respeitada ativista da favela, que nos aguardava ansiosa, com uma mesa repleta de guloseimas e um pernil suculento.

Denise do Espírito Santo, moradora da Rocinha |
“PARA ONDE FORAM OS BANDIDOS?”
Dona Denise viveu toda a sua infância na zona sul da cidade, na casa da família que sua mãe, Dona Laura, trabalhava como empregada doméstica. “Sou filha de uma mulher guerreira, de um clã matriarcal. Meu filho tem 22 anos e, graças a Deus, nunca se envolveu em coisas ilícitas. Também coloquei rédeas curtas, controlava horário, quando via alguma coisa diferente em casa, já ia logo perguntando de onde vinha. Até um cheiro diferente de perfume, nunca dei mole!” Na residência chique na zona sul, a então menina Denise recebeu o apoio dos patrões da mãe, que a incentivaram a estudar. “Eles me davam jornais e livros, com isso, me tornei uma pessoa mais informada. Pagavam cursos também. Estudei em um bom colégio”, relembra.
O grande sonho de sua mãe era ter uma casa própria e, após alguns anos, a oportunidade surgiu na Rocinha. Passados 20 anos, Dona Denise ainda vê sua residência em construção. “Tivemos que fazer uma casa de alvenaria por causa do lixo que estava atingindo as mansões. Foi o meio que arrumaram para o barranco não despencar nas casas dos ricos, uma forma de maquiar a ausência da infraestrutura do Estado”, explica. Segundo ela, ainda há muito por fazer, mas pelo menos agora os moradores têm um pouco mais de atenção do poder público.
Sobre a pacificação da Rocinha, iniciada em novembro de 2011, Dona Denise, a exemplo de outros moradores, se sente insegura e desconfiada. “Nunca tivemos a presença do Estado, agora, de uma hora para outra, querem que nós fiquemos amigos dos policiais, que sempre foram cruéis conosco. Vejo tudo isso com muita desconfiança, antes as pessoas eram mais livres, o caos continha o caos, éramos respeitados, agora estão assaltando moradores, coisa que nunca aconteceu antes”, revela. A nova situação é consequência dos poucos projetos sociais que existem na Rocinha. “Para onde foram os bandidos? Quem nunca trabalhou, agora vai arrumar emprego do quê?”, questiona a moradora. Para ela, o ideal é capacitar os jovens da favela com cursos mais ligados ao trabalho informal, como alvenaria, carpintaria e artesanato. “Para que eles não tenham que competir com pessoas que tiveram melhores oportunidades e possam trabalhar dentro da própria comunidade”, explica Dona Denise, já emendando uma nova pergunta: “Por que deixaram chegar a este estado de coisas?” Ela não é a favor do tráfico, porém, diz que para dar certo, a pacificação tem que se apoiar em ações sociais de grande abrangência.
Na favela da Rocinha é nítida a esperança estampada no rosto dos moradores. Por lá, dizem que, por enquanto, o ‘caldeirão está contido’. Quanto ao futuro... “O direito de sonhar ninguém pode nos roubar”, afirma Dona Denise.
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