Gingas do Brasil Personagens inesquescíveis do samba
CHICO
SCIENCE
Francisco de Assis França era o nome do homem, que de Francisco de Assis (o santo) tinha muito: as raízes ecológicas fincadas no mangue, o imaginário regido por bichos encantados, aratus, chiés, gabirus e urubus. Dentre todos eles, Chico elegeu um em especial – o caranguejo – como animal totêmico, que representa o homem faminto espumando de fome, considerado menos que homem, menos que bicho, pela sociedade burguesa, e o internacionalismo operário ascendente com suas antenas parabólicas recebendo e enviando estimulantes mensagens revolucionárias mundo afora.
Chico Science era herdeiro da tradição cangaceira, quilombola e outras tradições rebeldes brasileiras que nunca aceitaram as imposições e os abusos de coronéis e outros “senhores” que não largam o osso e que se esforçam por permanecer no poder, reduzindo a lixo a vida de trabalhadores. Essa esperança ativa transborda em suas divertidíssimas e bemhumoradas letras, que guiam nossa emoção pelos bairros sujos, pelos rios sujos, pelos blocos sujos, pela vida suja e enfeitada de Recife... A trajetória de Chico Science despontou com o Nação Zumbi, mas começou antes em experiências de rua como B-boy, dançando em rodas de break/hip hop no início dos anos 80, em Olinda. No final dessa mesma década já estava mergulhado em bandas como Orla Orbe e Loustal, ambas inspiradas em música negra urbana como rock, hip hop, soul e funk.
Em 1991, Chico entrou em contato e logo em seguida promoveu o encontro da banda Loustal com o bloco Lamento Negro, que conheceu em Peixinhos. Primeiros experimentos científicos prolíficos de radiação sonora explosiva, insurreição alquímica, fusão urbanocamponesa, a grande síntese do dilema que rondava a cabeça daquela juventude de caranguejos com cérebro: “Mudar a cidade ou mudar de cidade”. Culturas tradicionais de Recife são introduzidas na fusão: coco, embolada, pregões de feira, ciranda, ladainhas, indumentárias, maracatu, paisagens, poluições, xingamentos e chamegos eletrizados arrancaram Recife da pasmaceira. Os “mangue boys” colocaram o maracatu como elemento de orgulho nacional em todos os Estados do país, através da diplomacia revolucionária de Chico Science e a corte Nação Zumbi. O estilhaço mangue bit mudou o cenário.
Mas num aniversário de Yemanjá, em 2 de fevereiro de 1997, um acidente de carro colocou fim na meteórica vida de Science, que deu lições de como provocar mudanças tão positivas em tão pouco tempo. Com a banda Nação Zumbi, deixou registrados dois discos que figuram entre os 100 melhores do país, Da Lama aos Caos (1994) e Afrociberdelia (1996). Desse visionário, uma frase pulsa sempre na minha memória como um refrão: “A revolução já está nas ruas há muito tempo, só faltam a intensidade e a organização...”
MONÓLOGO AO
PÉ DO OUVIDO
CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI
Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que
estavam aqui
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando
bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a
necessidade de lutar
o orgulho, a arrogância,
a glória
Enche a imaginação de
domínio
São demônios, os que
destroem o poder bravio
da humanidade
Viva Zapata!
Viva Sandino!
Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os panteras negras
Lampião, sua imagem
e semelhança
Eu tenho certeza, eles
também cantaram um dia
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NANÁ VASCONCELOS
Naná faz a colheita desses primeiros estudos no primeiro campeonato de bossa nova do Recife, em que membros da comissão procuravam algum baterista que tocasse o ritmo 5/8, só encontrando Naná que, de quebra, se divertia, rindo e solando. Aventurando-se no Rio de Janeiro, conheceu Milton Nascimento através de Geraldo Azevedo, passando a acompanhar Milton e o grupo Som Imaginário. Em 1968, acompanhou Geraldo Vandré no espetáculo Pra não dizer que não Falei das Flores. Foi também no Rio que conheceu o saxofonista argentino Gato Barbiere, com quem decolou para os Estados Unidos e a Europa, enfatizando o toque hipnótico de seu berimbau. Acabou fixando residência em Paris.
Em 1972, gravou o seu primeiro disco solo, Africadeus, após uma viagem de seis meses pelo continente negro. No ano seguinte, ficou pronto o Amazonas, seu segundo disco. E nessa breve passagem de Naná pelo Brasil, Milton estava gravando Milagre dos Peixes, todo com letras de Ruy Guerra e todas elas censuradas, Milton decidiu fazer um disco basicamente instrumental, com as mesmas músicas, daí a participação cinematográfica e decisiva de Naná Vasconcelos na percussão, nessa obra magnífica em resposta à repressão. Em 1975, ele deixou Paris e retornou ao Brasil, se afinando com Egberto Gismont. Gravaram juntos os clássicos Dança dos escravos (1976), e Sol do meio dia (1977). Em 1984, se reencontraram e gravaram Duas Vozes.
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