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  Gingas do Brasil
Personagens inesquescíveis do samba
 

GIGANTE BRASIL

Esse bruxo era capaz de – numa frase rítmica – fazer a platéia cair numa agonizante gargalhada. Eu tive a sorte de vê-lo quebrando tudo na banda Isca de Polícia. Itamar Assumpção, compenetrado no sizo, o baixão dum reggae dissonante comendo solto, e atrás do baixista, o Gigante dissolvendo a tensão. O público naquele transtorno bipolar, hora coagulando, hora dissolvendo o humor. Itamar, sem saber por que o público ria, já que a música era densa e essa era a sensação que ele queria passar, porém, o desempenho de Gigante dizia o contrário. Assim que Itamar olhava pra trás para ver porque diabos o povo ria tanto, Gigante disfarçava, mineiramente, cabisbaixo, triscando com a baqueta no prato da batera como se nada houvesse acontecido. Esse era o tal do Gigante Brasil.

Seu nome era Jorge Luiz de Sousa. Nasceu em 25 de abril de 1952, no morro da Mangueira – a central rítmica do Brasil. Fruto de primeira, ele saiu transbordando a doçura do seu ritmo mundo afora. Suas primeiras apresentações aconteceram em 1969, na banda Massa Experiência. E nem bateria ele tinha ainda. Em 1970, já estava em São Paulo batucando com Jorge Mautner. Em 1975, formou a banda Sindicato, onde foi percussionista. O maravilhoso depoimento do músico e jornalista Luiz chagas, publicado na revista Brasileiros, diz que: “Ele tocava com o corpo, os braços pareciam asas, cantava num grave que parecia vir de outra dimensão, entrava em transe e arrastava o palco e o público junto”. Esse era o Gigante Brasil, uma bateria frenética de escola de samba incorporada num homem. E ele não parou por aí! Gigante tocou e gravou com um monte de gente boa, músicos como Marisa Monte no disco Mais. A faixa Ensaboa tem a voz de Gigante e seus graves de outra dimensão. Tocou com Anelis Assumpção, fez back vocal para Ceumar, tocou ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Gravou em 2006 seu único disco como cantor, Música Preta Branca e... Etc, em parceria com o baixista e produtor Paulo Lepetit. Dois anos depois o Gigante deitaria em sua cama para nunca mais acordar! Uma vez li num verso a seguinte frase: “Ponha sempre um pouco de ti em tudo o que fizeres”. Isso me marcou para sempre e, se há alguém em que vi perfeitamente essa atitude, foi no Gigante Brasil. Nunca vi ninguém tocar bateria daquele jeito, com tanta expressão, tocava como um sonoplasta, como co-autor da música, tocava em tudo, nas paredes, no chão, no corpo e, no auge de sua loucura (ou razão) largava tudo, tocava bateria, às vezes, sem baqueta, como quem come sem talher.

 

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