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Luis Gama
  A vida em camadas de Luis Gama

por Amilton Pinheiro / fotos divulgação

Em 2010, se comemora os 180 anos de nascimento do primeiro poeta negro revolucionário. Como muitos personagens da nossa história, muitas passagens da vida de Luiz Gama (1830-1882) - também jornalista e advogado autodidata - foram sendo mitificadas ao longo do tempo, principalmente sua infância, que conhecemos hoje, única e exclusivamente, pelos relatos do próprio Gama nos seus rascunhos de memória

Afinal, quem foi esse homem que, supostamente, nasceu de uma negra livre (Luiza Mahin, oriunda da nação nagô, na África, que ao se envolver em algumas insurreições na Bahia, fugiu para o Rio de Janeiro e de lá nunca mais se teve notícias)?

Seu pai teria sido "branco", de uma família portuguesa de posses, que, por conta de aventuras e jogos, perdeu toda a fortuna. "Em relação aos pais de Luiz Gama, historicamente não há nenhum documento testemunhal que prove a existência dessas pessoas. Nunca foi encontrado nenhum registro ou documento a esse respeito.

Ficamos sabendo da existência delas, como sendo seus pais, pelos relatos do próprio Gama, que foram sendo transmitidos ao longo desses anos. Na minha tese questiono alguns pontos relativos à identidade dos pais dele, tema sobre o qual existe muita ficção", nos revela Ligia Fonseca Ferreira, professora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e autora da tese Luiz Gama: étude sur l avie et I´oeuvre d´um Noir-citoyen (Luiz Gama: estudo sobre a vida e a obra de um Negro-Cidadão), na Universidade de Paris 3 - Sorbonne.

INCONFORMADO COM SUA CONDIÇÃO

Não dispondo de nenhum documento ou relatos confiáveis, o que ficou registrado é que, em 1840, em Salvador, na Bahia, Luiz Gama foi vendido pelo próprio pai para saldar dívidas contraídas em jogo. Foi levado para o Rio de Janeiro e, depois, para Campinas, para ser vendido como escravo. Não havendo comprador pelo fato de Luiz ter vindo de Salvador (notoriamente conhecida pelos seus escravos rebeldes e propensos ao não cativeiro), o menino Gama seguiu para Lorena, interior de São Paulo, pelas mãos do escravocrata Antônio Pereira Cardoso.

E os anos foram passando até que, em 1947, um amigo do seu dono, Antônio Rodrigues do Prado Júnior, o ensinou a ler e escrever. Ao que tudo indica, o aprendizado das palavras acentuou ainda mais o inconformismo de Luiz Gama com sua condição de escravo.

"Com 18 anos, fugiu do cativeiro para sentar praça na Marinha de Guerra. Seis anos depois, já cabo de esquadra, insurgiu-se contra um oficial insolente que o insultara, foi preso e compareceu perante o conselho de guerra, que o excluiu dos quadros daquela Força Armada", relata Fábio Konder Comparato, em texto apresentado no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, em Brasília, em 2007. Nele, Konder define Luiz Gama como "o maior advogado brasileiro do século XIX e um dos nossos mais dignos de todos os tempos". A citação de Luiz Gama como o maior advogado do século XIX não é força de expressão e nem tampouco exagerada

UM POETA "BURLESCO"

No importante artigo Luiz Gama: O Poeta Como Um Certo Tipo de Homem, o pesquisador e professor da Universidade do Estado da Bahia, Sílvio Roberto dos Santos Oliveira fala de como a poesia de Gama não só dialogou com as expressões literárias do seu tempo, o século XIX, como conseguiu desaguar na poesia negra ou afro-brasileira da nossa era. "A análise da poesia de Luiz Gama faz ver que ele participou de algumas tendências do momento romântico, tal qual a tendência satírica, herdeira de antiga tradição do riso, presente em autores como Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães.

E que antecipou, por exemplo, o sentimento de orgulho identitário através de um olhar reverso, que, no século XX, grassou e, no século XXI, ainda grassa na produção de poetas negros". Mas, como o autor de um único livro de poemas, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, lançado em 1859, ainda ecoa na poesia afro-brasileira contemporânea? A resposta, de certa forma, nos é dada por Ligia Fonseca Ferreira.

"Ao resgatar e analisar profundamente as edições de Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, preparadas pelo autor, procurei trazer à tona o valor e o lugar desta obra na literatura brasileira, já que pela primeira vez um autor se enuncia como 'negro'. Na coletânea também, encontram-se os primeiros poemas da nossa literatura dedicados à mulher negra

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