Raízes << Home
Envie para um amigo Imprimir
Mia Couto
  Por uma nova África

por AMILTON PINHEIRO | fotos RAFAEL CUSATO

Mia Couto nasceu em Beira (segunda cidade mais importante de Moçambique), em 1955 e, antes de formar-se biólogo, cursou Medicina. Foi a escrita, porém, que lhe fez soltar sua voz (suas letras) para o mundo, evocando um passado de horror pelos 30 anos em que viveu envolto com guerras em seu país. Primeiramente, por causa da luta pela independência e, depois, pela guerra civil que se instaurou logo em seguida.

"Falo da guerra na minha obra não porque eu queria falar sobre ela, mas porque ela me colocou perante situações extremas, em que somos obrigados a repensar sobre nós mesmos, o valor da vida, da solidariedade com os outros. A guerra foi muito importante para a minha escrita, como indivíduo vivendo em sociedade, e nunca mais sairá de dentro de mim", diz o escritor, que já esteve várias vezes no Brasil, onde lançou quase dez livros, a maioria pela companhia das letras.

Para ele, a escrita é essencial, comparada à própria vontade de respirar. nesta entrevista exclusiva, Mia fala sobre literatura e, principalmente, do enfrentamento e empenho que a África terá para resolver os seus problemas

Por que tantos significados em seus livros, em seu universo ficcional?
Bem, não é o meu universo (risos). Acho que a vida que é assim, plena de significados. O que queremos fazer como escritores não é tentar conferir ou conduzir a leitura para certo significado. O papel do escritor é mostrar exatamente a diversidade de possibilidades que esse mundo nos oferece.

Você fala que, dificilmente, um livro seu parte de uma ideia, de algum ponto. Explique isso melhor.
Eu não tenho um projeto, nenhum plano. Quando escrevo um livro prefiro não saber em que vai dar aquela história. Sei que há alguma coisa que prefiro não saber. Quero ter essa relação com a escrita, que é a de não saber. Uma relação que eu vou me surpreendendo, como se os personagens fossem contando a história para mim.

"Escrever é ensinar alguém a sonhar"

Como você enxerga a questão da falta de conhecimento que o brasileiro tem em relação à África?
Esse desconhecimento é grave, porque, por um lado, não se conhece mesmo e, por outro, pensa que se conhece. Para mim é pior ainda essa presunção de que já se conhece. Mas isso não é uma coisa só do Brasil. É europeia, universal. A África é uma coisa simples, pode ser reduzida a três ou quatro aspectos folclóricos. Todo mundo pensa que já sabe o que é. O maior drama é que os próprios africanos estão assimilando essa imagem de si próprios, uma espécie de visão muito exótica daquilo que seria identidade, que é sempre uma identidade também vista por dentro: a Mãe África e os africanos, todos sentados à sombra dessa grande Mãe sem divisões, sem conflitos, quando de fato a realidade é outra.

Nas décadas de 1960 e 1970, existia um grande intercâmbio cultural entre Brasil e África, mesmo com o problema da ditadura militar. Em Moçambique havia o problema do colonialismo e da guerra civil. Agora, numa suposta democracia, vivemos quase que completamente isolados culturalmente. Por quê?
Digamos que essa aproximação entre Brasil e África tinha um propósito, que era o de mostrar uma ideia de que os portugueses foram capazes de construir um império acima das raças, espécie de benção integradora daquilo que foi a missão portuguesa no mundo. Obviamente circulava muita cultura entre o Brasil e a África, mas não circulava tudo. Por exemplo, Jorge Amado circulava discretamente. não sei se eu prefiro a situação de hoje, em que as coisas não circulam, mas podem circular, pois não há nenhum tipo de obstáculo, ou a situação passada, que custou muito sofrimento, até mesmo vidas humanas. comparemos ou não ao passado, há que se fazer qualquer coisa para melhorar essa situação, deve haver maior circulação de produtos culturais, de conhecimento entre nós.

Isso tem a ver com a mercadoria?
claro que tem. Mas tem a ver com outras coisas, como, por exemplo, o fato de as escolas brasileiras hoje ensinarem sobre o nosso continente. É importante frisar que isso não aconteceu espontaneamente. É preciso contrariar essa ideia de que o mundo é América e Europa, e o resto é periferia. Forçaram uma relação direta entre nós - África e o Brasil.

O fotógrafo francês Pierre Verger disse que quando conheceu o continente africano ficou surpreso e perplexo ao mesmo tempo, pois jamais imaginou que iria ver irmãos africanos se matando entre si. Afinal, de quem é a maior parcela de culpa desses massacres na África?
Acho que não se pode culpar o mundo pelas nossas mazelas. Uma das razões de a África ter dificuldade de resolver interiormente seus problemas é que há certa facilidade em culpar os outros. É preciso olhar para dentro, reavaliar o processo de independência dos países africanos, que completou 50 anos. Temos de ver nossa autorresponsabilidade. De fato, há todo um trabalho imenso que é preciso fazer, porque as ideologias dessas elites novas na África apontam sempre na mesma direção, a de responsabilização externa e da repetição dessa ladainha de que a culpa foi do domínio colonial, dos tempos da dominação europeia e, agora, da globalização e do individualismo. E será outra coisa qualquer, mas nunca é interna.

A guerra civil moçambicana marcou muito a sua escrita?
A guerra foi muito importante para a minha escrita, para mim como indivíduo vivendo em sociedade e nunca mais sairá de dentro de mim. não porque eu queria falar sobre ela, mas porque ela me colocou perante situações extremas e limites, em que somos obrigados a repensar sobre nós mesmos, o valor da vida, da solidariedade com os outros.

Ser escritor branco, minoria em Moçambique, causou algum problema para você?
não, de forma alguma. É muito raro que eu esteja numa situação, no meu país, em que alguém fale da minha cor, de raça. isso é um grande privilégio em Moçambique, pois lá se conseguiu levar muito longe a luta contra o preconceito racial. não digo que não exista algum tipo de preconceito em Moçambique, mas que diminuiu drasticamente, diminuiu.

"NÃO CONHEÇO NENHUM LUGAR DO MUNDO EM QUE A QUESTÃO RACIAL TENHA SIDO INTEIRAMENTE RESOLVIDA. ACHO QUE MOÇAMBIQUE PODE ESTAR DE PARABÉNS, PORQUE CONSEGUIU LEVAR ESSA LUTA MUITO LONGE"

Por que a prosa passou a ter uma necessidade maior em seu ofício de escritor?
Encaro da seguinte forma: Moçambique era um país absolutamente dominado pela poesia, em contraponto com Angola, que era dominado pela prosa. Acho que nessa altura, Moçambique via na poesia uma espécie de veículo para cantar o futuro, cantar certa utopia que nós vivíamos naquele momento e, de repente, houve a necessidade de um encontro mais profundo com as nossas raízes, uma pesquisa de interioridade nossa, e daí a prosa passou a prestar melhor esse serviço. É uma ideia, um pouco abusiva da minha parte, um pouco peregrina, mas é assim que eu penso.

UMA NOVA OBRA

Mia Couto fala de seu último livro publicado no Brasil, Antes de nascer o mundo, editado pela Companhia das Letras
"É uma história que pode ser resumida dessa maneira: um velho, Sivestre Vitalício, que inventa para seus filhos que o mundo acabou, que eles são os últimos sobreviventes da raça humana, e, portanto, transporta essa família para um lugar, que é o último lugar do mundo, remoto de tudo e de todos.

E ali recomeça, numa espécie de peregrinação de delírio, construindo um novo mundo, que ele chama de Jerusalém. O que acontece é que nesse isolamento, que demora anos e é composto de personagens masculinos, de repente aparece um intruso e toda essa construção que o velho tinha feito, desmorona. De repente começa a aparecer um novelo de revelações que são surpreendentes."

 

Reportagem :: ed 137 - 2009
Negros do Mundo
Movimento :: ed 136 - 2009
Beleza rara
Perfil :: ed 137 - 2009
Jéssica Barbosa

Cultural :: ed 137 - 2009
Culto aos ancestrais
Notícias :: 24/11/09
Livro traz trajetória de cantoras negras 'não-sambistas'
Agenda :: 12/11/09
Santa Maria comemora Consciência Negra

 
Quero Assinar
Comprar esta edição
Ver Edições Anteriores
 












BUSCAR!

 
Assine Atrevidinha
 

No passo do frevo
Seria o frevo o jazz brasileiro ou o jazz o frevo norte-americano? Quem sabe?

 
Prontos para o altar
Os noivos são naturalmente o centro das atenções e não precisam de muito para arrancar elogios


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS