JOVENS NEGROS
Em busca de presença e participação Geração de descobertas, de aventuras, a juventude de hoje quer muito mais. Não se contenta em ilustrar apenas as páginas dos jornais com dados estatísticos escabrosos. Pelo contrário. Muita coisa mudou na autoestima da juventude negra de tempos pra cá
por CÉLIA R. DA SILVA | fotos RAFAEL CUSATO | colaboração ANDRÉ REZENDE
Motivos para essa mudança não faltam: maior mobilização da sociedade civil, da luta dos movimentos sociais negros, do surgimento de uma mídia étnica que ajuda na valorização da identidade negra e de investimentos do Estado.
Para o pesquisador Rodrigo Denílson, mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a multiplicação de universidades públicas que passaram a adotar políticas de reserva de vagas para negros e estudantes de escolas públicas, a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), além das mudanças recentes nas formas de representar os negros brasileiros, criaram possibilidades para os jovens negros sonharem e buscarem outros lugares, recusando assim a máxima do "ponha-se no seu lugar".
"Eles querem e sabem que podem estar presentes nos espaços. As políticas de ação afirmativa, como as cotas, tornaram possíveis sonhos antes quase inimagináveis", afirma Rodrigo, que exemplifica tais sonhos como a formação superior e a entrada no mercado de trabalho qualificado. "A reflexão sobre o pertencimento identitário étnico-racial possibilita a multiplicidade de vivência na escola, na mídia, na família e nos grupos de amizades.
A diferença existe, sobretudo, devido a situações como a classe social, condição étnicoracial, de gênero e local de moradia", explica Natalino Neves da Silva, pedagogo, mestrando em Educação e Integrante do Programa Ações Afirmativas na UFMG
IGUALDADE E VOTO
"É muito comum ainda ver o racismo estampado na sociedade, algumas pessoas não se conformam com a igualdade entre raças, povos e religiões, mas eu tenho fé que um dia todos serão vistos como iguais", diz Flávio Raphael dos Santos, 21 anos.
Estudante de Administração (Comércio Exterior) faz estágio na área em uma grande rede de magazines e critica a sociedade desigual em que vivemos e, por isso, fala com seriedade quando o assunto é voto, poder do povo muitas vezes desperdiçado. "Acho que é preciso lutar por aquilo que você acredita. E se você acredita que o melhor para o seu país ou comunidade é votar pelos seus direitos ou ideais, então, vote", sugere.
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CONTANDO A PRÓPRIA HISTÓRIA
Como o esquizofrênico Ademir, de Caminho das Índias, o ator Sidney Santiago tem se destacado na novela. Faz parte da nova geração de atores negros que está marcando presença na TV. Sobre a família, chefiada pela mãe na ficção, ele destaca que a novela denuncia, ainda que de forma rasa, a trajetória de grande porcentagem da mulher negra que se vê sozinha na ocupação e sustentação dos filhos.
Formado em Artes Cênicas pela Universidade de São Paulo (USP), Sidney foi à faculdade para se politizar e trabalhar a técnica. Para ele, a geração que está nas universidades tem como desafio contar sua própria história. "Os jovens estão agindo, seja na poesia, na literatura, nas artes. As dificuldades encontradas são reflexos de uma história oficial de 4 mil anos, que distorce, ofusca, rouba a fala, censura, inibe, mata e mutila.
Ou seja, ainda está sendo traçada", explica. A desconstrução da arte é outra aposta do ator para a atuação política. Para Sidney, a arte é muito branca, então, precisa ser traída, confundida e desapropriada. "É para ter sentido a todos nós que somos resultado de uma diáspora. Estamos falando de uma arte que venha com depoimentos, e não representações, feita por nós, sobre nós, para nós e os outros." |
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RESPEITO E ÉTICA
"Poder dar-se por inteiro sem medo de errar, sonhar, acreditar e ter convicção de que tudo é possível. Momento de descobrimento e descobertas, de erros sem culpa. De descobrir e entender quem somos, porque somos e o que estamos fazendo aqui". É assim que Renata Aloá Oliveira, 23 anos, define como o melhor de sua geração.
Formada em Administração Financeira, no momento é uma das vítimas do desemprego e mora com a mãe na zona oeste de São Paulo. Fã de livros, programas jornalísticos e de debates na TV, Renata acompanha bem a sua geração no quesito modernidade. Chega a passar até três horas navegando na internet.
No Brasil, existem cerca de 11,5 milhões de jovens, entre 18 e 24 anos de idade, que representam 6,6% da população brasileira, segundo o IBGE
EM BUSCA DE EDUCAÇÃO
Taluana Brisa tem 18 anos e pretende cursar a faculdade de Letras. Adora revistas de informação e a programação dos canais educativos. "O conteúdo das outras emissoras precisa ser repensado", avisa a jovem auxiliar administrativa que trabalha em uma empresa de telemarketing. Taluana enxerga muitos problemas no Brasil, mas aponta como o mais grave deles a corrupção.
"Porque as outras causas, bem ou mal, já têm quem olhe por elas, mas as fraudes políticas necessitam de toda uma população, o que torna a missão quase impossível, pois grande parte é analfabeta ou tem analfabetismo funcional", adverte.
Os números demonstram a face discrepante de uma realidade que, apesar das mudanças positivas dos últimos anos, ainda hoje divide o País. Por exemplo, a taxa de analfabetismo entre a juventude negra é de 5,8%, já para jovens brancos cai para 1,9 %. Em média, jovens negros têm dois anos a menos de estudos do que os brancos da mesma faixa etária: 7,5 anos e 9,4 anos, respectivamente. O crescimento econômico aliado ao investimento educacional de sua população é um dos maiores desafios da nossa sociedade para torná-la menos desigual
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