ÍCONE ZÉ DO BAIÃO
O rei do ritmo Próximo de completar 60 anos de carreira, um dos expoentes da tradição do forró autêntico do Nordeste se entristece por não ser reconhecido como artista e, mais ainda, não ser convidado para tocar e cantar
por AMILTON PINHEIRO | foto RAFAEL CUSATO | produção JAIME PALHINHA
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Zé do Baião atualmente é frequentador da Galeria Dom José de Barros, reduto de músicos e cantores veteranos
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Alguns importantes artistas brasileiros são acometidos, de tempos em tempos, do esquecimento. Apesar do sucesso na carreira, são injustiçados no final da vida, morrendo no ostracismo. Um exemplo foi Jackson do Pandeiro que, em 1954, estourou em todo Brasil com a música Sebastiana.
Nascia ali um dos mais originais e versáteis artistas do povo, que influenciaria vários cantores, músicos e compositores de diversas gerações e tendências, mas que mesmo assim foi tragado pela indústria de massa perversa que impera no Brasil, morrendo, quase esquecido, em 1982.
Mas antes de Jackson dar as caras no Rio de Janeiro, um conterrâneo seu tentava a sorte na Cidade Maravilhosa no final de 1948. Vindo do município de Tacaratu, em Pernambuco, seu nome artístico era Zé do Baião que tinha como referência, inspiração e admiração o já consagrado Luiz Gonzaga.
E foi por causa de Gonzagão que José Pereira Lima (seu nome de batismo) decidiu deixar suas paragens e pedir o apoio do famoso sanfoneiro, que ele gostava de tocar e cantar nas apresentações que fazia no sertão de Pernambuco. Mas...
"EU COMECEI A TOCAR, DANÇAR E CANTAR A 'MACACA', COMO DIZEMOS LÁ NO NORDESTE, DESDE OS 7 ANOS E NUNCA MAIS PAREI""
CONVITE DE VOLTA
Nascido em 17 de julho de 1930 em uma família numerosa e pobre, como tantas outras do Nordeste, Zé do Baião encontrou no forró e em suas variações (xote, xaxado, baião e coco) sua maneira musical de se expressar. "Eu comecei a tocar, dançar e cantar a "macaca", como dizemos lá no Nordeste, desde os 7 anos e nunca mais parei. Sempre fui um "macaco" do meu mito Luiz Gonzaga", relata Zé do Baião.
Quando chegou ao Rio, foi ao encontro de seu ídolo, que na época se apresentava na rádio Mayrink Veiga. Ingênuo e com a afobação típica de principiante, pediu o apoio de Luiz Gonzaga na carreira artística. Segundo Zé, o diálogo foi o seguinte: - Eu queria que o senhor me ajudasse na minha carreira profissional aqui no Sudeste. - O que é que você faz? - Canto muito suas músicas lá no Nordeste. - Você é de onde? - Sou de Pernambuco, seu conterrâneo. - Então, volta para a sua terra e vá trabalhar, porque artista nasce, não se faz. - Tá bom, então, sanfoneiro é vagabundo? Eu toco e canto, assim como você.
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Zé do Baião nos anos 1960, no auge do sucesso
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Ao relatar sua primeira conversa com Luiz Gonzaga, Zé do Baião se emocionou várias vezes, a ponto de parar para conter as lágrimas. Não se deixando intimidar e numa demonstração de personalidade e força (como diria Euclides da Cunha, "o sertanejo é, antes de tudo, um forte"), não tomou conhecimento do conselho do ídolo e decidiu partir para São Paulo e tentar seguir a carreira.
ZÉ RUFINO?
Na terra da garoa ele penou muito para sobreviver, mas sua fibra de sertanejo não o deixou fraquejar e, passados alguns meses, os ventos começaram a soprar a seu favor. Zé do Baião venceu um concurso de calouros numa rádio e, apoiado por Venâncio, da dupla Venâncio e Corumbá - que iniciou carreira cantando coco em Pernambuco e na década de 1940 chegou ao eixo Rio-São Paulo -, começou a cantar profissionalmente, nos idos de 1949.
"Comecei a fazer sucesso e nessa época me encontrei por acaso e novamente com Luiz Gonzaga num programa de rádio. Ele não me reconheceu e, ao saber que meu nome artístico era Zé do Baião, pediu para eu trocar, pois ele já era o Rei do Baião e, portanto, poderiam confundir as nossas carreiras.
Ele disse: 'Por que você não coloca seu nome artístico Zé Rufino?'. Eu nem dei ouvido", nos conta entre risadas o sanfoneiro, que garante que nunca guardou mágoas do ídolo e até continuou cantando as músicas de Gonzagão durante a sua carreira.
O AUGE
Na década de 1960, Zé do Baião experimentou o auge artístico com a participação no programa O Astro do Disco, na TV Record, apresentações nas rádios e muitos hits (o maior deles foi Ingratidão que, segundo ele, venderia mais que o cantor americano Paul Anka na época do seu lançamento), além de viagens por todo o Brasil e América do Sul.
"Cheguei a me apresentar de segunda a segunda em circos por todo o País, sem precisar de mídia nenhuma. As pessoas me adoravam e eu me sentia muito feliz com tudo aquilo", relembra. Nessa época foi convidado para fazer uma participação no filme
A morte comanda o cangaço (1961), de Carlos Coimbra, em que cantou três músicas. "Ele (Carlos Coimbra) perguntou se eu sabia cantar. Disse que, além de cantar, eu fazia coreografias, dançava músicas folclóricas e tocava. Não deu outra, ele me contratou no ato."
O QUE SERÁ QUE SERÁ
A trajetória artística de Zé do Baião saiu de uma ascendência para começar a declinar no final dos anos 1960, que culminou com a sua decisão de abandonar temporariamente os palcos. O sanfoneiro virou vendedor de móveis. "Sempre ajudei os outros e muitas vezes fui traído por companheiros de profissão. Mesmo em casa nunca tive apoio de minha esposa (o artista foi casado e teve um único filho, José Carlos Pereira). Mas hoje reconheço que fiz algumas besteiras, como me envolver com mulher nova.
Como você sabe, homem velho com moça nova, sempre acaba em besteira", diz, com arrependimento e tristeza. Mesmo se saindo bem na profissão de vendedor de móveis (chegou a subgerente), Zé do Baião não aguentou e decidiu voltar à vida artística em 1980, quando gravou o disco A volta do Zé do Baião. O sucesso nunca mais foi como antes, mas isso não o impediu de continuar tocando sua sanfona, dançando seu xaxado e cantando o verdadeiro forró nordestino.
Nos últimos anos, não foi mais chamado para se apresentar em lugar nenhum, fato que o deixa entristecido, assim como na música Assum Preto, de Luiz Gonzaga (...que por ter os olhos furados não pode avoar...). Zé do Baião espera que alguém o chame para fazer o que mais sabe na vida, tocar seu instrumento, fazer seus passos ritmados e soltar a voz, como na música que começa a cantarolar no final da entrevista: "Ela se foi e nunca mais voltou/Ninguém me traz uma notícia dela/ Ainda ontem eu dormi sonhando/Passando a mão nos cabelos dela...".
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