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Jane, Wagner, Clóvis, Gil, Afonsinho e Tereza: encontro regado a histórias divertidas
Tinha gente que só pegava o 6h08 para jogar truco e curtir samba
O imbatível time do 3o vagão lembra de vitórias e pancadarias
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O grupo - hoje de quarentões e cinquentões - reunido na residência do empresário Gil Marcos, na zona norte de São Paulo, tinha um único objetivo: relembrar nomes e histórias ocorridas durante o período acadêmico, no 3o vagão do trem expresso que ia da Estação do Brás à Mogi das Cruzes. Com apenas duas paradas, a viagem durava pouco menos de uma hora. "Quem queria estudar para a prova viajava no horário das 5h42. A zorra no 6h08, principalmente em nosso vagão, era demais", comentam. Além do dono da casa, que é formado em economia, estavam nessa reunião com cerveja e uísque, queijos e frios, o engenheiro e advogado Clóvis Gama - também conhecido como Caçapava -, sua mulher, a cantora Tereza Gama, do Clube do Balanço (que não estudava em Mogi, mas não perdia uma viagem, acompanhando o namorado à faculdade), os advogados Wagner Barbosa Rodrigues e Jane Costa, e Afonso Carlos de Campos, graduado em Educação Física.
O caminho das cotas
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Festas e namoros, no trem e nas casas de colegas
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Na década de 1970, estudar em Mogi das Cruzes era um bom motivo para ser alvo de preconceitos e chacotas. Nos cursinhos pré-vestibulares era comum ouvir que quem não se preparasse bem teria de estudar em uma das três faculdades daquela cidade: a Organização Mogiana de Educação e Cultura (OMEC) - atual Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Faculdades Brás Cubas, hoje UBC, e a Faculdade do Clube Náutico Mogiano. "Na época, Mogi era a nossa alternativa, a cota no mundo universitário. Pois, apesar da distância, pagava-se menos da metade da anuidade de qualquer das faculdades particulares mais famosas", comenta Gil. E os demais acrescentam: "Mas havia cursos bons e alguns professores excelentes, quem queria aproveitar, saía de lá com boa formação". Apesar de serem as faculdades com maior número de afrodescendentes, todos se lembram que, em suas salas de aula, se não fossem os únicos negros, estavam entre os poucos. E, mesmo pagando menos, todos têm histórias de dificuldades para manter as mensalidades em dia. Dividiam um pastel, um cachorro-quente, comiam muito X-Miséria (pão com ovo), rachavam em dois um PF (prato feito)... Chegavam até a pular o muro da estação do Brás e a catraca em Mogi, tudo para não pagarem passagem.
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Além das lembranças, um sonho de continuidade
Tudo era motivo para estarem juntos: festas juninas...
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Um vagão negro
Mas nada de lamentações. O assunto é o 3º Vagão e suas histórias intermináveis. Afinal, naquele carro viajavam praticamente apenas estudantes negros, o que lhe dava uma característica muito própria. Mas também havia estudantes brancos que se enturmavam. E era o samba, às sextas-feiras, e o jogo de truco, de segunda a quinta, as atrações principais para um número tão grande de estudantes que fazia das tripas coração para não perder a viagem. Clóvis, atrasado, era sempre "salvo" por alguém que já estava no vagão e o puxava pela mão antes de a porta se fechar. Bunana, atual vice-presidente da Nenê de Vila Matilde e filho caçula do fundador da escola de samba, como era alto, prendia a porta com os braços e os pés e as meninas passavam por entre suas pernas para entrar no vagão.
Em pouco tempo, o 3o vagão se transformou num clube, com diretoria e até mensalidade. Como um dos organizadores, Clóvis lembra que o tesoureiro era um estudante chamado César que, na época, estava no Centro Preparatório de Oficiais da Reserva (CPOR). "Eu era do 1o vagão, onde viajava o pessoal da engenharia. Até que me falaram do samba que rolava no 3o. Não deu outra! Fui para lá e entrei na diretoria", relembra. Entre os pioneiros, em 1976, estão Betinho, filho mais velho de Seu Nenê da Vila Matilde, Sérgio, Cocco, Pirulito e Gil. "Lembram de um cara que a gente chamava de Cabelo ou de Barba, que fazia um coquetel de frutas num abacaxi? Uma delícia que passava de mão em mão!", comenta um deles.
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