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  Tocaña a versão afro da Bolívia
Lagunas azuladas adornadas com flamingos rosados, terrenos irregulares e alaranjados do altiplano e indígenas de origem quéchua e aimará com trajes de cores fortes. Há anos, esses tons têm dado o ritmo do turismo na Bolívia, no centro oeste da América do Sul, no entanto, quem desce a serra em direção aos Yungas, na pré-selva amazônica, encontra não apenas uma das regiões mais verdes e ricas, mas t

texto e fotos EDUARDO VESSONI

Eles são negros, de sorriso fácil e olhar penetrante. Adoram uma festa com batucadas fortes e ao som da Saya. O orgulho da raça é elevado, mas ainda não conseguiram esquecer o passado triste. Assim são os habitantes desse povoado latino-americano de 30 famílias, das quais 28 delas começaram a escrever a sua história ainda em solos africanos como o Senegal e o Congo.

Os primeiros negros chegaram à região com a onda de imigrantes africanos trazidos ao continente para encarar jornadas de trabalho de até 16 horas e sem nenhuma remuneração. Na Bolívia, foram escravizados nas frias minas de Oruro e Potosí e, posteriormente, em setores dos Yungas de La Paz, como Chicaloma e Mururata. "Nosso mundo era aqui, entre Tocaña e a vizinha Chichipa", descreve Juan Vásquez, atual secretário-geral do povoado e filho de um escravo que trabalhou em plantações da região, cujas condições climáticas e altas altitudes exigiam esforço dobrado. "Em troca de um pedaço de terra de 50 metros quadrados, trabalhavam grátis por três dias e nos outros eram 'livres' para buscar seu próprio sustento", completa Vásquez. Essa era a rotina e a sina daqueles homens e mulheres, mesmo depois da escravidão ter seu fim decretado, em 1851, pelo então presidente boliviano Manuel Isidoro Belzu. A estratégica técnica branca de misturar, em um mesmo povoado, africanos de diferentes etnias, também foi utilizada em Tocaña, de modo que as reuniões e revoltas fossem evitadas. Mas mesmo com tanta diversidade linguística, essa comunidade encravada em uma bela montanha conseguiu criar a sua própria identidade e, atualmente, se prepara para receber os grupos de viajantes que começam a descobrir novas possibilidades de turismo na Bolívia.

TURISMO DIFERENCIADO

O pequeno povoado não se deixa abalar pelo passado escravo e tem investido pesado para abocanhar uma parcela dos turistas de todo o mundo que visitam aquele país. A comunidade inaugurou, recentemente, um centro cultural dedicado a apresentações de saya afroyungueña - espécie de coro africano acompanhado por danças cadenciosas e sensuais -, e os habitantes locais passaram por capacitações nas áreas de gastronomia e hotelaria. O maior potencial turístico, porém, está mesmo do lado de fora. Os belos bosques, serras e cachoeiras que rodeiam a pequena cidade a 1.680 metros sob o nível do mar são tão desconhecidos pelos estrangeiros quanto a sua origem. Os mais radicais contam até com parapente para sobrevoar a esverdeada imensidão montanhosa dos Yungas. Outro atrativo e importante fonte de renda da comunidade são as folhas de coca.

O que é tabu em outros países, em Tocaña é produto legal e corrente, tanto no comércio quanto no turismo. Favorecidas pela aridez da região, as plantações se adaptam em todo tipo de solo e são a esperança de um povo que ainda sofre preconceitos nas comunidades brancas. O secretário-geral de Tocaña relembra que, até pouco tempo, os negros da região mal podiam ir à escola ou caminhar pela rua. "Era humilhante ser negro. Éramos motivo de piada, tanto pela nossa cor quanto pelo nosso sotaque diferenciado. Éramos tão raros em todo o país que os brancos nos beliscavam com se fôssemos algum tipo de amuleto", conta Vásquez. Mas isso é passado e a população continua enchendo imensos sacos com folhas secas de coca recolhidas da terra cansada e tratadas, sob o sol forte, ali mesmo. Os turistas também ganham, seja na troca cultural durante os tours organizados pelas comunidades para conhecer as plantações do produto ou pela simpatia e alegria raras dos negros de Tocaña ante a cara fechada e desconfiada de um país que ainda vê o estrangeiro como uma constante ameaça.

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