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Graffiti
  Graffiti a arte da revitalização urbana
Eles moram na periferia de São Paulo e, com o projeto São Mateus em Movimento, dão mais vida ao lugar onde vivem. De uma favela fizeram uma galeria de arte a céu aberto

por Alexandre de Maio | fotos Rrafael Cusato
Val, Toddy e Cris, do grupo Opni. Transformação social e atitude através do graffiti

O que eles falam

Graffiti: se escreve assim mesmo. É um nome próprio e não pode ser traduzido
Writter: grafiteiro
Crew: grupo
Tag: assinatura de um grafiteiro
Caps: bicos do spray. Existem caps para cada tipo de traço
Hall of fame: muro com grandes dimensões, pintado por vários artistas
Wild style: graffiti caracterizado por uma forte estilização das letras
3D: uma técnica em que é trabalhado o volume da letras

"Acho natural que bons artistas em grande nível técnico e conceitual comecem a ocupar espaços dentro de galerias e museus",
diz o veterano grafiteiro Binho.

LEGENDAS: 1 Vários trabalhos do grupo Opni já foram publicados na RAÇA BRASIL. 2 O Beco do Batman, na Vila Madalena, que reúne trabalhos de dezenas de artistas. 3 Graffiti e pichação no mesmo espaço. Respeitar o artista é fundamental.4 Grafiteiro Binho. 5 Negotinho, rapper e professor de capoeira no projeto São Mateus em Movimento.
Moradora da Vila Flávia, em São Mateus, Regina se orgulha do trabalho feito em sua comunidade

O grupo Opni está causando uma revolução na comunidade da Vila Flávia, em São Mateus, zona leste de São Paulo. Os grafiteiros Val, Toddy e Cris - amigos de infância - queriam melhorar o espaço em que vivem. A saída encontrada foi a arte do graffiti! Essa história começou em 1997 e, na época, os rapazes estavam mais interessados na pichação. "A pichação sempre foi muito forte aqui na zona leste, mas a gente desenhava junto, jogava bola junto e era discriminado junto também e achamos o nosso recuo dentro da pichação", conta Toddy.

O tempo passou e, em meados de 2001, começou, de forma inconsciente, o projeto São Mateus em Movimento, sempre de forma bem natural e de acordo com a essência de vida de cada um dos integrantes do grupo. "Não é só uma questão de pintar no muro, tem também a atitude. A periferia precisa de arte e a gente simplesmente faz o que a gente vive. Nosso graffiti tem muito da questão negra, porque essa é a nossa história", explica Val. A realidade também moldou o estilo dos artistas do grupo. Na dificuldade financeira de ter várias latas de spray de cores diferentes, eles desenvolveram na sua arte com a cor azul e seus graffitis já são conhecidos pela beleza e predominância dessa cor.

O nome do grupo nasceu com o significado Objetos Pichadores Não Identificados (Opni). Com o tempo foi adquirindo outros, como O povo nada impõe, Os policiais nos incomodam e até Ódio produz nossa inspiração. Val, Toddy e Cris também fazem graffitis de protesto no centro da cidade, como na Avenida 9 de Julho, em que uma criança segura uma arma com a seguinte frase: A consequência engatilhada na sua cara é foda. Outro trabalho que despertou a atenção foi o desenho de um garoto sendo baleado e as escritas 13 de maio de 2006, não esquecemos, em referência à resposta da polícia aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) que vitimou vários jovens inocentes na zona leste, inclusive amigos do grupo. Os arquivos foram apagados e ninguém foi punido.

Em prol da comunidade

Além da revitalização do espaço público, o projeto São Mateus em Movimento tem outras preocupações sociais, promovendo, entre outras atividades, o combate à violência, debates sobre os problemas da comunidade, palestras, oficinas e projetos sobre moradia. Nesse contexto, outra figura importante é Fernando Rodrigo de Carvalho, o rapper Negotinho, que dá aulas de capoeira no projeto. "Virou um ponto de encontro, aqui tem muita molecada e adulto sem ter o que fazer e o projeto conseguiu tirar um pouco o pessoal do foco da violência, fez a população daqui abrir a cabeça, conhecer outras pessoas, porque todos ficavam bitolados só dentro da favela", conta Negotinho.

O graffiti é uma ferramenta que o Opni encontrou para trabalhar com a comunidade. "Eu acho muito bom o trabalho deles e admiro muito. Além de enfeitar, deu uma reanimada em nossa rua", orgulha-se Regina, 53 anos, moradora da região. Eles usam e pintam o nome Sociedade Fantoche (ideologia do grupo criada em 2000 pelo amigo Pxote - com p mudo mesmo!) e uma tesoura.

"A tesoura significa cortar as vias imaginárias da manipulação", explica Toddy. O grupo Opni é a segunda geração do graffiti e traz em suas influências artísticas nomes de peso do graffiti nacional como os pioneiros Binho, Os Gêmeos e Vitché, assim como artistas mais antigos da região como a galera dos Birutas. Entre os nomes clássicos estão Da Vinci e Salvador Dali, pelo estilo, e Van Gogh, pela atitude. Além das ruas, o grupo mantém o Estúdio Opni, onde faz ilustrações gráficas, revistas e capas de CD. Neste mês eles viajam para Joinville e, na sequência, para Florianópolis. É a arte do graffiti ressignificando o espaço urbano e a vida de milhares de jovens.

Ressignificação é o método utilizado em neurolinguística para fazer as pessoas atribuírem novo significado para os acontecimentos pela mudança de sua visão de mundo
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Jéssica Barbosa

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