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  Do pente á trança de ferro
Memórias de 30 anos de uma cabeleireira afro

por Maria Da Penha Nascimento* | ilustração Daniel Rosa
Foto reprodUÇÃo
ÂNGELA DAVIS Professora socialista e filósofa americana, ganhou destaque nos anos 70 como integrante dos Panteras Negras e sua militância contra a discriminação racial nos Estados Unidos e pelos direitos das mulheres

Os movimentos fervilhavam na década de 1960. O mundo se transformava: Martin Luther King, os Black Panther, Ângela Davis... A repercussão chegava ao Brasil como uma bomba.

Mas foi mesmo nos anos 1970 que tudo aconteceu. Os afrodescendentes puderam começar a sua história, espalhando pelo mundo que a hora do continente africano havia chegado, unindo os filhos perdidos. Era hora de re-escrever a história das etnias divididas.

Nos principais Estados com presença afro, como São Paulo, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro, as notícias chegavam em primeira mão. Os movimentos negros e os simpatizantes se movimentavam em gritos de liberdade. Os cabelos e os corpos se soltavam em outras gingas, vibrando esteticamente, dando início ao novo ciclo dessa década.O movimento Black Power bailava ao som do Chic Show e do Renascença Clube.

A tesoura e o o pente soltavam os fios crespos alongando em direção ao ritmo do soul, que embalava os bailes da época. No fim da década, as tranças e os dreadlocks, ou simplesmente dreads, ganharam força. Com toda realeza africana, os cabelos blacks se entrelaçaram, resgatando do consciente coletivo, dando um basta no que se dizia ser padrão.

E a estética branca perdeu parte dos consumidores que, escravizados durante um século, quebraram o espelho da madrasta enclausurada, resgatando a alta estima Black Power. O negro é lindo! O trabalho precisou de executores que fizeram a ação acontecer. O Afonjá, no Rio de Janeiro, foi o primeiro salão do Brasil, em 1970, e muito importante para a época. A inspiração, emanada pelos deuses da criação, resgatou na nossa memória lindos penteados trançados e a consciência de que isso era um resgate cultural. O futuro dos negros estava apenas começando.

Foto reprodução
CHIC SHOW Na década de 1980, fez história em São Paulo com a realização de grandes bailes e festas, principalmente no Palmeiras, sempre trazendo grandes nomes da música black em suas produções

Nos anos 1980 tudo se confirmou. A estética negra já não era mais a mesma. Em 1979 fui trabalhar no Salão Afonjá com um pessoal bem bacana. Era uma espécie de escola que nos ensinava a desenvolver os penteados como se fosse mágica. Em 1981, fui para Salvador, na Bahia, onde desenhei algumas cabeças *Maria da Penha Nascimento, cabeleireira especializada em cabelos afro há 30 anos, é também conselheira da revista RAÇA BRASIL por lá.

Nessa época, negros e negras da cidade ainda não conheciam as tranças soltas (alongamento). De volta a São Paulo, trabalhei com diversas pessoas até fundar o Orile, em parceria com minha amiga Kika. Hoje? Dreads, tranças e alongamentos se misturam numa só ação, a de que não precisamos apenas de cabelos para nos afirmar. É preciso mais! É preciso atitude, como canta a juventude do hip hop. E continuamos, alongando, trançando e até alisando sem querer imitar ninguém, apenas brincando de ser feliz.

Fotos arquivo raça  
Cabelo trançado, finalizado com dread de lã
Torcido e preso com elástico, sugere um visual exótico
Cabelo escovado, finalizado com modelador largo
Trabalho artesanal com dreads feitos de lã
 
Black power natural

Poema

Neguei minha identidade
Durante muito tempo
Hoje não tenho dúvida
Quando falo, no meu modo de vestir
De falar nas minhas escolhas
Destruir uma raça é
Confundir sua cultura

*Maria da Penha Nascimento, cabeleireira especializada em cabelos afro há 30 anos, é também conselheira da revista RAÇA BRASIL

 

Reportagem :: ed 137 - 2009
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Perfil :: ed 137 - 2009
Jéssica Barbosa

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