Gente << Home
Envie para um amigo Imprimir
IDENTIDADE! > ORGULHO
  Acelera Hamilton!
Lewis Hamilton, o piloto mais jovem a se sagrar campeão da Fórmula 1, é também o primeiro negro a se destacar no automobilismo mundial

por ELIANA ANTIQUEIRA

Esporte de elite dominado por europeus brancos, a Fórmula 1 teve de se render ao talento excepcional do inglês Lewis Hamilton, um jovem de 23 anos, nascido numa cidade à cerca de um hora de Londres, que em apenas dois anos na categoria sagrou-se campeão mundial num dos campeonatos mais disputados (e emocionantes!) dos últimos tempos.
A história de Hamilton difere da dos companheiros de pistas, geralmente jovens bemnascidos, filhos de ex-pilotos e figuras do jet set internacional. Lewis não nasceu em berço esplêndido, longe disso. E, como todo garoto pobre, seu sonho era ser... jogador de futebol! Torcedor fanático do Arsenal, chegou a participar de testes para o juvenil, mas foi reprovado. Sorte da McLaren que detectou no garoto um potencial campeão e, em 1998, quando Lewis tinha apenas 13 anos, o contratou para o programa de desenvolvimento de talentos da escuderia.
A estréia nas pistas, se é que se pode dizer assim, foi aos três anos de idade, num kartódromo de Ibiza (Espanha), onde a família passava férias. Aos cinco, ganhou do pai um carrinho de controle remoto e sua habilidade com o brinquedo era tamanha que a BBC de Londres o convidou a mostrar seu talento num programa infantil. Enfim, aos oito anos de idade ganhou um kart para chamar de seu. A paixão pelo automobilismo se refletia na seriedade com que enfrentava os treinos e as primeiras competições, e nas horas que gastava em frente da TV, em companhia do pai, Anthony, assistindo aos duelos históricos entre Ayrton Senna e Alain Prost. A admiração confessa pelo piloto brasileiro subiu à cabeça, literalmente. Lewis Hamilton incorporou a cor amarela em seu capacete (o que se mantém até hoje) em homenagem a Senna. O primeiro título veio aos dez anos de idade. Assim como o primeiro recorde: foi o mais jovem piloto a conquistar o Campeonato Inglês de Kart na categoria Cadete e eleito o piloto de kart do ano pela revista Autosport. Na cerimônia de premiação, a qual compareceu com um terno emprestado pelo ganhador do ano anterior, Lewis deu o passo que mudaria seu destino, e esse passo foi em direção a Ron Dennis, o dirigente todopoderoso da McLaren. Empunhando um caderninho de autógrafos, aproximou-se de Dennis, entabulou uma conversa de alguns minutos e disparou: "Gostaria muito de correr por sua equipe um dia". Ron sorriu e pediu que o procurasse mais tarde, quando estivesse mais velho. O ano? 1996.
Nos dois anos seguintes, a carreira do menino ficou seriamente ameaçada. Seu pai, funcionário da rede ferroviária inglesa, não tinha mais como custear seu sonho e as dificuldades só aumentavam. Como última esperança, Anthony arrumou outro emprego, como motorista de ônibus, e nessa jornada dupla, foi segurando as pontas, até o filho conseguir o contrato com a McLaren. O menino mostrou que não estava de brincadeira e passou a colecionar títulos e a conquistar novas categorias do automobilismo até chegar à F1. E o resto, você sabe, já entrou para a história.

PRECONCEITO
Num momento em que a nação mais importante do mundo ganha um líder negro (Barack Obama), também é bastante emblemático que um dos esportes mais elitizados do mundo sagre um afro-descendente campeão. E para Hamilton, esta não tem sido uma caminhada fácil.
Logo após seu filho conquistar o Campeonato mundial de Fórmula 1, Anthony Hamilton desabafou que o racismo e outros insultos dirigidos ao piloto poderiam encurtar a carreira do rapaz. Ele se disse consternado com o que chamou de "campanhas odiosas" realizadas em todo o mundo. "Minha família sofreu vários abusos na última semana. Não só na última semana, mas nos últimos meses", disse Anthony à imprensa britânica. "Eu acho que talvez este não seja o lugar para a minha família, porque, como pai, não considero que seja correto fazer essas coisas com famílias e crianças."
Na semana anterior ao GP Brasil, Lewis recebeu um gato preto de pelúcia, considerado um sinal de má sorte em muitas culturas. A situação criou certo constrangimento - jornais ingleses chegaram a questionar se o ato era uma manifestação racista ao primeiro negro a correr na Fórmula 1. Além disso, o site espanhol "Pincha la Rueda de Hamilton", em que o visitante podia deixar objetos em uma pista virtual de Interlagos para evitar que o piloto britânico terminasse o GP do Brasil, acabou saindo do controle, com vários torcedores deixando insultos racistas ao piloto britânico.
"Já há décadas, alguns investigadores têm se dedicado a observar o esporte para além do seu caráter supostamente ingênuo, buscando descortinar o que envolve essa que é uma das mais populares manifestações culturais", escreveu no jornal Folha de S.Paulo Victor de Andrade Melo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do grupo de pesquisa Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer. "As questões raciais e os discursos que configuraram os mais diversos preconceitos também são perceptíveis na trajetória do esporte no século 20", complementa.
O estudioso aponta que a vitória de Lewis Hamilton tem um enorme simbolismo por contribuir para a superação dos preconceitos que ainda persistem e completa: "Devemos seguir lutando para que, no futuro, isso deixe de ser algo extraordinário. Que definitivamente os indivíduos sejam considerados não pela cor, idade ou classe social, mas pela competência, seja no esporte, seja para conduzir os caminhos de uma nação". O talento de Lewis Hamilton falou mais alto e, a despeito das dificuldades e da intolerância, o garoto fez bonito e mostrou que o sucesso não se atinge sem perseverança.
Movimento :: ed 136 - 2009
Beleza rara
Reportagem :: ed 137 - 2009
Negros do Mundo
Perfil :: ed 137 - 2009
Jéssica Barbosa

Notícias :: 24/11/09
Livro traz trajetória de cantoras negras 'não-sambistas'
Agenda :: 12/11/09
Santa Maria comemora Consciência Negra
Agenda :: 12/11/09
Mês da Consciência Negra

 
Quero Assinar
Comprar esta edição
Ver Edições Anteriores
 












BUSCAR!

 
Assine Atrevidinha
 

No passo do frevo
Seria o frevo o jazz brasileiro ou o jazz o frevo norte-americano? Quem sabe?

 
Prontos para o altar
Os noivos são naturalmente o centro das atenções e não precisam de muito para arrancar elogios


  ContentStuff - Sistema de Gerenciamento de Conteúdo - CMS