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Dona Ivone Lara
  Primeira-dama do samba
Com uma vida cheia de contrastes, dona Ivone Lara é um exemplo de talento, determinação e simpatia. Criada na rigidez de colégio interno, sem a presença dos pais, encontrou no tio músico inspiração para ingressar no time das sambistas. Mas foi só após dedicar 38 anos à enfermagem que pode voltar-se exclusivamente ao seu grande dom de cantar e encantar

por AMILTON PINHEIRO | foto RAFAEL CUSATO

Os contrastes parecem determinar a vida da sambista Dona Ivone Lara. Ao ficar órfã, foi criada na rigidez de um colégio interno. Aos 17 anos, mudou-se para a casa do tio Dionísio Bento da Silva, músico profissional. Lá quase não existia regra, mas em compensação tinha muita música; samba e choro. Tio Dionísio, "chorão" dos bons, reunia os amigos para compor e tocar, e foi nesse ambiente festeiro que a menina Ivone se formou musicalmente.

Aos 12 anos, ganhou um pássaro "tiêsangue" dos primos Hélio e Fuleiro, que depois se tornariam seus parceiros nos sambas, e por causa desse presente teve sua primeira inspiração para compor, nascia Tiê-Tiê. Mas para a menina órfã, a ordem do dia era a sobrevivência: arrumar emprego, ter uma profissão, construir a vida. Foi como enfermeira, e depois assistente social, que ela dedicou 38 de sua vida, criou os filhos e se aposentou em 1977, quando pode se dedicar integralmente à música.

Com o belíssimo samba Sonho Meu ganhou projeção nacional. Alguém me avisou e Alvorecer consolidaram seu lugar no panteão dos grandes compositores nacionais. É compondo e cantando sambas que essa mulher inspiradora de 87 anos vive e se alimenta e de forma alguma pensa em parar. Veja mais sobre esta encantadora dama nesta entrevista exclusiva concedida para RAÇA.

RB - É verdade que a senhora não tem nenhuma foto sua quando criança?
Dona Ivone Lara - Fui criada num colégio interno e lá eu não tive oportunidade de tirar fotos. Quando saía, eu ficava na casa de um tio que tinha bastante filhos e não me lembro dele tirar fotos da gente.

Ter que, desde cedo, lidar com regras dificultou sua adaptação no mundo exterior?
No Colégio Orsina da Fonseca tínhamos internato e externato, e eu me adaptei logo àquele regime, tanto é que depois que minha mãe morreu (Dona Emerentina morreu com 33 anos, e Ivone tinha 12 anos na época) eu preferia ficar no colégio interno a ter que ir para casa de algum parente.

Aos 17 anos a senhora deixou o colégio interno, e como foi esse recomeço?
Órfão de pai e mãe (Dona Ivone Lara perdeu o pai, João da Silva Lara, muito pequena) eu precisava trabalhar. Foi aí que eu fui estudar para ser enfermeira. Depois fui trabalhar como assistente social nos hospitais psiquiátricos, porque eu me especializei em Terapia Ocupacional e me aposentei nessa função em 1977, depois de 38 anos dedicados ao ofício.

O seu berço musical foi na casa do seu tio Dionísio, que era músico?
Ele tocava trombone, violão de sete cordas e outros instrumentos, principalmente os de corda. De vez em quando ele reunia os amigos em casa, por exemplo, Pixiquinha, e ali tocava com os músicos as suas composições e a dos seus parceiros. Meu tio era chorão (tocava choro). Naquela época nós éramos crianças [ela e seus primos] e ele gostava muito que nós assistíssemos essas apresentações.

Por ter sido a primeira mulher a entrar numa ala de compositores de uma escola de samba, a Império Serrano, se sentiu discriminada de alguma forma?
Não, porque eu não me apresentava em outra escola que não fosse a Império Serrano. Quando disputei o samba-enredo do carnaval da Escola Império Serrano, outros compositores foram lá me deram a maior força, tanto é que eu ganhei o concurso, juntamente com meu parceiro Silas de Oliveira.

GRANDES SUCESSOS
Apesar de contar com mais de 300 composições no currículo, as canções abaixo são as mais lembradas (e pedidas) nas apresentações da grande dama

Acreditar
Alguém me avisou
Bodas de ouro
Candeeiro da Vovó
Enredo do meu samba
Força da Imaginação
Mas quem disse que eu te esqueço
Sonho Meu
Sorriso de Criança
Tendência
Tié-tiê

Como foi ter sua música, em parceria com Delcio de Carvalho, Sonho Meu, gravada por Maria Bethânia?
Foi graças a Rosinha de Valença que me convidou para ir à sua casa e nesse dia também chamou a Maria Bethânia. Lá eu cantei a música Sonho Meu, e a Bethânia chegou para mim e disse que tinha adorado, mas que não poderia colocar no seu novo disco, porque ele já tinha todas as músicas escolhidas. E para minha surpresa, depois de alguns dias, estava em casa quando escuto na rádio ela cantando minha música. Bethânia me fez essa bela surpresa.

"Na casa de Rosinha de Valença, cantei a música Sonho Meu, e a Bethânia chegou para mim e disse que tinha adorado, mas que não poderia colocar no seu novo disco, porque já tinha todas as músicas escolhidas. E para minha surpresa, depois de alguns dias, estava em casa quando escuto na rádio ela cantando minha música. Bethânia me fez essa bela surpresa"

Como a senhora avalia a ascensão do pagode comercial, nos últimos anos, em detrimento do samba?
Foi uma oportunidade que o pagode teve. O samba dá oportunidade de se criar muita coisa. Quando apareceu o tal do pagode, ele foi mais uma novidade para ganhar dinheiro, para os empresários ganharem dinheiro. Eu me apresentei algumas vezes, mas só ia para ganhar meu dinheiro. Nunca quis (fazer) parceria, nada de parceria.

Em algum momento da sua vida pessoal e/ou artística sofreu alguma discriminação racial?
Se eu disser que sofri, estou mentido. Nunca fui discriminada em minha escola nem na minha vida. Eu não sei se é porque eu nunca me meti com essa questão de raça, e nem nada disso. No colégio onde eu estudei não havia discriminação. Nós éramos 300 alunas internas e 300 alunas externas e tinha de todas as cores - meninas pardas, negras e brancas - mas lá só sobressaía quem estudava. Eu era "preta", mas nunca deixei de ser escolhida para me apresentar no coral do colégio, inclusive no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

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