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CAPA
  Valquiria Ribeiro
Samba, suor e estudo

Com várias incursões universitárias no currículo, ela vive a sofisticada Isabel em Vidas Opostas, sem deixar de lado o projeto social que comanda na Vai-Vai

POR DENISE MOTA


FOTOS: ANGELO PASTORELLO
REALIZAÇÃO: MARCELLA MIDANI
PRODUÇÃO: HÉLIO ANSELMO
CABELO E MAQUIAGEM: DANIEL BRASIL

Ela não pisa em falso. Talvez por caminhar com os pés bem presos ao chão, talvez por nunca entrar em campo sem ter total domínio do território. Quando estreou em novelas, tinha um diploma de artes cênicas no bolso e, mesmo com uma vida inteira passada dentro das quadras da Vai-Vai, afiançou o gingado como dançarina profissional, condição que a levou para lugares tão distantes e distintos como Coréia do Sul e Nova Zelândia. Mas é em Terra Brasilis que a Isabel Lopes de Vidas Opostas voa mais alto. Dividida entre as atividades na escola de samba do coração e as gravações da novela da Record, a paulistana de 29 anos continua a se multiplicar em várias facetas, mas agora para ser, por fim, apenas atriz, como sempre desejou. "Estou vivendo um momento maravilhoso na minha vida. Estabilizada na carreira, com um contrato, fazendo o que gosto, feliz com a minha família e apaixonada", resume.

Convicta de sua profissão, ela fala com entusiasmo e eloqüência sobre livre-arbítrio, acaso e coincidências. A familiaridade com o tema se explica: durante boa parte de suas quase três décadas de existência, esteve experimentando onde começava um, onde terminava o outro e como sua vontade, ao fim, poderia controlar o que quisesse. "Acredito em Deus, acima dele não há ninguém. Mas não acredito em destino. O homem é o ser mais maravilhoso que existe porque tem o poder da escolha. A gente tem essa opção sempre. Para tudo tem o sim e o não, o direito e o esquerdo", diz. A escolha crucial da vida de Valquíria foi conciliar a cobrança paterna para que tivesse uma profissão "de verdade" com o talento inato que aflorava nos eventos da família desde a infância. Na adolescência, o balé clássico foi a primeira arena que a filha mais velha do perseverante e humilde clã dos Ribeiro - ele, gesseiro vindo das colheitas no interior de Goiás; ela, enfermeira e cabeleireira nascida em Assis (SP) - decidiu abandonar, depois de 14 anos de treinos, iniciativa do pai para canalizar a incontornável energia da menina. Os "pliés" começaram a ser soterrados ainda nos anos 80, por conta da febre Michael Jackson que estremecia o planeta. Outro território conquistado foi o da beleza. Na puberdade, a experiência de "patinho feio" ("Eu era 'a legal', mas nunca ficava com ninguém") foi contrabalançada por um curso de modelo patrocinado pela mãe, que desejava que a então desajeitada moleca ganhasse ares mais delicados e melhor postura. Outra mãe - a natureza - se encarregou de dar o remate final no trabalho: no decorrer da adolescência, a prestativa mas ofuscada companheira de escola foi desaparecendo atrás da escultural mulher de 1,76 metro com que muitos marmanjos sonham hoje em dia. "Eu continuo sendo 'a legal', mas hoje tenho outros artifícios", brinca a atriz. Os "artifícios" de Valquíria a levaram para o terreno da publicidade, para desespero do pai, que lhe perguntava constantemente quando iria parar com aquela brincadeira e ter um trabalho a sério. Filha mais velha, responsável e obediente, a moça mergulhou em sucessivas carreiras universitárias e passou a encarar os comerciais como bico. O bloqueio à possibilidade de ingressar definitivamente no meio artístico era tão grande que não cogitaria inscrever-se em uma faculdade de artes cênicas - o caminho mais óbvio e condizente com sua trajetória - até entrar em A Praça É Nossa, em 2000, e conhecer José Miziara, até hoje seu "guru", como classifica. O ator e diretor a apresentaria a Herval Rossano, diretor da versão de A Escrava Isaura que a Record levaria ao ar em 2004. Na emissora, Valquíria, depois de uma aparição-relâmpago como mãe da personagem-título, terminaria por assinar contrato como atriz fixa, documento que acaba de ser renovado até 2010. "A Praça É Nossa foi uma escola para mim, pela aprendizagem e porque me libertou também. Posso dizer que fui privilegiadíssima. Comecei com o Ronald Golias. Trabalhei com a Zilda Cardoso, que fazia a Catifunda, com o Zé Bonitinho (Jorge Loredo). Pude aprender um pouco desse humor, o mais puro que a gente tem, que não é o humor 'glamour', que tem mais a ver com a graça do circo, de rir com bobagens, da fragilidade. A Praça foi onde eu me descobri e onde me descobriram." Ela saiu dos bancos da praça para o sofrimento e a morte como Juliana em A Escrava Isaura.

" Na adolescência, eu era 'a legal', mas nunca ficava com ninguém. Hoje, continuo sendo 'a legal', mas só que tenho outros artifícios"

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