A sexualidade é uma das descobertas mais interessantes e emocionantes da adolescência. Aos 11 ou 12 anos, os hormônios explodem e mudam nosso corpo e, principalmente, nossa percepção do mundo. Meninos e meninas passam a se olhar de uma outra maneira. E se quando eram crianças, um mal prestava atenção no outro, agora, eles atraem olhares de curiosidade, de paixão e desejo.
Segundo os psicólogos e médicos, é muito importante que tudo isso aconteça. São essas novas percepções sobre a sexualidade e o prazer que vão ajudar a formar a personalidade - o que a criançada vai ser quando crescer. Além disso, ter uma boa vida sexual faz parte do conceito de saúde. Tanto é verdade que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem um departamento que só se dedica a estudar o tema.
Mas não é assim para todas as meninas. Enquanto para algumas delas, a primeira transa e o primeiro parceiro têm um significado mágico porque estão relacionados com o amor, para muitas as relações sexuais não são para aprender que sexo e prazer andam juntos e que é importante ter uma cumplicidade com o companheiro. Para elas, a transa é apenas o caminho para engravidar. E aqui gravidez significa deixar um presente pesado de lado e ter esperança no futuro.
MUNDO TÃO DIFERENTE
Por que algumas meninas encaram a gravidez de uma maneira tão diferente? A explicação é simples e triste. O que faz muitas delas decidirem pela maternidade é a dura realidade em que vivem. Não falta informação sobre os métodos anticoncepcionais mas sobram sonhos. Luana, Evelin, Joice e Edilene são dessas garotas com histórias difíceis. Luana tem 15 anos, mora no Morro dos Macacos, zona norte do Rio de Janeiro, e é a filha mais velha de uma família de mulheres. Sua mãe, viúva, sustenta sozinha as cinco filhas e Luana há meses vinha alimentando a idéia de ter um filho só para ela.
Evelin, que deixou a escola na quinta série e gosta de ir ao baile funk, descobre que está grávida no dia em que completa 13 anos. Seu namorado é um rapaz de 22 anos que acabou de se desligar do tráfico de drogas. Edilene não planejou nem evitou sua gravidez.
Ela tem 14 anos e espera um filho de Alex, por quem é apaixonada. Alex engravidou ao mesmo tempo Joice, sua vizinha. Enquanto Edilene já vive o drama de um triângulo amoroso, Joice viu o fim do seu sonho de entrar para a Marinha. Filhas de uma classe social menos privilegiada, as quatro adoles centes abriram sua vidas no documentário Meninas, da cineasta Sandra Werneck. Depois de entrevistar 110 meninas em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Minas Gerais, a produção do filme percebeu que, no fundo, são todas muito parecidas, nos sonhos e nos dilemas e escolheram as quatro cariocas para chamar atenção para a questão e mostrar um ano na vida dessas adolescentes, desde quando souberam que estavam grávidas. "O universo que conheci, ao acompanhar a trajetória das meninas, foi profundamente revelador. Elas quase não vivem suas infâncias, desde cedo assumem o compromisso de cuidar dos irmãos mais novos e de suas casas. Acabam por confundir maternidade com maturidade, na expectativa de que o novo status de mãe signifique um reconhecimento na comunidade e na família. O período da gestação - em que a espera é a única aliada - coincide com o fim de seus sonhos infantis", fala Sandra Werneck.
A VIDA NÃO É FILME
Para Bebeto Arantes, roteirista do filme, investigar o fenômeno do crescimento da gravidez adolescente é revelador. "Trata-se de uma forma de conhecer a quantas anda a qualidade de vida do país. E o motivo é simples: quem observa atentamente uma menina grávida e seu entorno acaba por falar em desigualdade social e desejo, educação e relacionamento familiar, sonhos e desencantos, erotização da infância e aborto."
O que Sandra Werneck mostra nas telas é só uma pequena amostra do que acontece diariamente nas comunidades carentes. No Brasil, embora as taxas de fecundidade estejam caindo desde a década de 70, a proporção de partos entre as adolescentes tem sido cada vez maior. Estima-se que, apenas em 2005, mais de 628 mil meninas ficaram grávidas. E o parto é a primeira causa de internação de adolescentes no Sistema Único de Saúde (SUS). Lígia de Fátima Nóbrega Reato, vice-presidente do Departamento da Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, analisa a questão de perto. Nas pesquisas que realiza, prova que quanto mais alto são os níveis econômico e social das adolescentes, menor o índice de gravidez entre elas. "Em um estudo que estamos realizando com as meninas de classes sociais mais baixas de Santo André, perguntamos porque elas engravidaram. A resposta é surpreendente. A maioria diz que queria engravidar", conta Lígia.
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| Edilene espera um filho de Alex, ajudante de marceneiro. Assim que seu bebê nascer, ela vai morar com a mãe, que também está grávida |
Então, falta informação para essas meninas? Elas conhecem os métodos anticoncepcionais? "As adolescentes que ficam grávidas e engrossam as estatísticas levam uma condição de vida mais precária. Elas conhecem os contraceptivos e têm informação. Mas não têm um projeto de vida e, inconscientemente, não se protegem. Aliás, o projeto de vida delas pode ser justamente esse: engravidar para tentar levar uma vida mais digna", alerta a especialista. Na contramão do que essas meninas acreditam, a Organização Mundial de Saúde revela que a gravidez na adolescência não é tão promissora assim. É, de fato, a porta de entrada para a perpetuação da pobreza.
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