Olhando de fora, a história de Cíntia Mendes da Silva poderia render um livro e tanto. E, como num conto de fadas, agora tudo é cor-de-rosa para ela. Aos 18 anos, Cindy, como é mais conhecida, é um sucesso. Principalmente depois de dar vida a Lena, personagem que interpretou em Antônia, série exibida pela Rede Globo e que estreou nos cinemas no começo deste mês. "Ingressar neste meio não é facil, principalmente para uma menina muito jovem e negra", conta Cindy, que decidiu seguir na carreira artística ainda na infância.
Mas a investida como atriz não é o único motivo que a coloca sob os holofotes. O lado musical é outro ponto que chama a atenção na trajetória da garota. Afinal, ela é destaque no cenário hip hop, no chamado free-style (ou rap de improviso), uma praia até então dominada por homens que encaram o papel de durão quando sobem no palco com o microfone na mão. "O rap é muito machista. Se a menina usa uma roupa mais decotada, os caras já taxam como depravada", desabafa. "Mas sempre me impus. Usava roupas mais largas, adotava uma atitude bem séria para os caras me respeitarem", diz a garota que recentemente lançou Grite Alto, primeiro disco de sua carreira.
Uma mostra da popularidade alcançada por Cindy - e, por conseqüência, pelas companheiras Negra Li, Leilah Moreno e Quelynah que, em Antônia, interpretam Preta, Barbarah e Mayah, respectivamente - pôde ser conferida no dia 31 de dezembro de 2006. Em plena avenida Paulista, uma das principais vias da cidade de São Paulo, o quarteto foi uma das atrações mais esperadas por todos que foram festejar e receber 2007. Cerca de 2 milhões de pessoas se espremiam para ver de perto as cantoras e atrizes e cantar com elas os sucessos do seriado. Cindy estava lá... e brilhou muito!
Minha meta não é aparecer. É construir para ser
(SOBRE O FUTURO)
Essa nova realidade parece não assustar Cindy, a caçula da turma. Mas como todo jovem da sua idade, as questões existenciais invadem seus pensamentos colocando uma série de interrogações. A principal delas, talvez, seja qual o caminho que deve seguir: o de cantora ou de atriz.
"É muito difícil falar porque amo muito as duas carreiras. Pra mim é uma coisa só porque tudo é arte. Tanto eu como as outras meninas do Antônia estamos tendo a oportunidade de aparecer como cantora e atriz. Ainda não tenho a sabedoria de afirmar se quero isso ou aquilo. Me sinto bem fazendo as duas coisas", explica. Mas ela deixa escapar um detalhe importante, que pode dar uma dica sobre qual rumo deve optar: "Quando crescer quero ser como a Alcione", entrega, rindo.
Embora boatos afirmem que Antônia terá uma segunda temporada na televisão - o programa elevou a audiência da emissora em 11 pontos no horário de sua exibição, com 31 de média e picos de 33 na Grande São Paulo - Cindy mostra-se pronta para encarar as surpresas que o destino reserva. "Minha meta não é aparecer. É construir para ser".
NA LAJE E NO PONTO DE ÔNIBUS
O disco Grite Alto chega para brindar a excelente fase pela qual Cindy atravessa. São, ao todo, 15 músicas em que ela mostra que tem a língua afiada e um discurso engajado. Com canções próprias e outras em parceria com manos como Tchorta, Borato, Kamau, Marcel Ortiz, DJ Primo, a rapper aborda temas como amor e exclusão social. "As músicas surgem a todo instante e em todos lugares: no ponto de ônibus, no portão de casa, nos intervalos da escola, na laje...", conta.
'Meu pai dançava break, tinha black power. Ele contribui bastante para meu aprendizado musical. Foi ele quem me deu os primeiros discos de jazz e de black music
(SOBRE FAMÍLIA)
Com melodias temperadas com muito soul, hip hop e r&b, o álbum abre com um recado direto de Cindy: "Raça, cores, línguas, religião, se misturam quase sem querer/Venho do berço nobre do Rei Pelé e Garrincha/ Malandragem com certeza tá na minha ficha/ Ops, espera lá, calma, stop, alto lá, só eu sei o que passei, não vem me atropelar/ Grite alto, não deixe ninguém te calar...Lembro bem daquelas festas que tinha roda de rima e eu era a única mina que mandava free-style...", discursa.
O ritmo do disco segue a rima e um toque de MPB pode ser ouvido aqui e ali. "Adoro Caetano Veloso, Gal Costa, Elis Regina... Por conta disso, até arrisquei um samba nesse disco de estréia", fala. Outras surpresas aparecem. É o caso de Criança.com, por exemplo, que surge como um tipo de manifesto denunciando a mídia infantil. A canção já é uma das mais tocadas nas rádios do eixo Rio-São Paulo.
Grite Alto, música que batiza o disco, é um verdadeiro "grito" e chega como um hino à auto-estima. "Às vezes eu sonho e acordo com a música pronta na minha cabeça.
Grite Alto, por exemplo, foi assim", lembra. Outro ponto positivo do CD são as participações especiais. "Acho que tenho que fazer uns 50 discos para colocar todas as pessoas que eu gostaria", conta.
E olha que são vários os brothers que contribuem: Rick Db, Cleveland Watkiss, Mister Venon dão uma mãozinha de forma discreta, mas certeira.
Mas o principal destaque neste quesito é a dupla Kamau e Max B.O., parceria que rendeu uma das melhores músicas do álbum, De Onde Eu Venho. "O Kamau me ajudou muito, me deu muita força. Ele é meu irmão de coração", diz.
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